Ao longo dos anos, entre centros cirúrgicos, pesquisas e consultórios, tenho visto a Medicina avançar em uma velocidade que impressiona até os mais entusiastas da inovação. Vivi essa transformação de perto durante meu fellowship no Rothman Institute, nos Estados Unidos, um dos maiores centros mundiais de cirurgia do quadril, e ao longo da minha trajetória como mestre, doutor em Ciências e professor da Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Ainda assim, apesar dos avanços extraordinários, volta e meia me deparo com a sensação de que algo essencial está se perdendo no caminho.
Não é técnica, não é equipamento. É atitude. A Medicina parece correr para acompanhar tecnologias que prometem resultados perfeitos, mas exigem um preço silencioso: a renúncia da escuta, da prudência e da ponderação. Vejo isso tanto nas consultas quanto em discussões científicas. Há uma pressa para transformar descobertas em soluções universais, uma expectativa de que cada inovação seja a resposta definitiva, quando a realidade clínica é bem mais complexa.
Na Ortopedia, essa tensão se agrava. Cirurgias robóticas, navegação avançada, abordagens menos invasivas e próteses cada vez mais sofisticadas são conquistas reais. Sou certificado em cirurgia robótica e acompanho de perto o impacto positivo dessa tecnologia, principalmente na precisão do posicionamento dos componentes do quadril. Mas sei, pela ciência e pela prática, que nenhuma máquina substitui o julgamento clínico. O corpo humano não se comporta como um software que espera por uma atualização. É uma estrutura viva, marcada pelo tempo, pela genética, pelo estilo de vida, pela história de cada indivíduo.
A tecnologia é uma aliada poderosa quando usada com critério e propósito. O risco surge quando ela é tratada como produto, como espetáculo, como atalho. E é nesse ponto que muitos pacientes se sentem perdidos, seduzidos por promessas de recuperações milagrosas e técnicas que supostamente eliminam riscos. A busca pelo novo não pode apagar o papel fundamental da evidência científica, da experiência acumulada e do diálogo responsável entre médico e paciente.
O avanço não é inimigo da essência. Mas exige equilíbrio. Para cada inovação, é preciso perguntar o que ela acrescenta de fato à vida do paciente. Se melhora resultados. Se reduz complicações. Se torna o processo mais seguro. Se respeita o que realmente importa: a autonomia, o conforto e a confiança de quem procura um médico porque sente dor, medo ou limitação.
Manter esse compromisso ético em um cenário de mercado acelerado tornou-se quase um ato de resistência. Envolve recusar modismos, explicar o que a ciência ainda não sabe e seguir caminhos mais seguros mesmo quando eles oferecem menos brilho. E envolve, sobretudo, reconhecer que o paciente não busca apenas tecnologia, mas orientação, transparência e humanidade.
A Medicina que me formou não cabia em atalhos. Era feita de dúvidas, de estudo rigoroso e da disposição constante de revisar condutas à luz de novas evidências. Essa base continua atual e indispensável. Se há algo que a tecnologia não pode substituir é justamente o que sustenta essa profissão desde sempre: a capacidade de ouvir, interpretar, ponderar e cuidar.
Entre ossos, máquinas e escolhas, sigo acreditando que o futuro da Medicina depende menos do equipamento e mais da postura. Avançar é importante. Mas avançar com responsabilidade é indispensável. É isso que devolve função, confiança e sentido ao que fazemos todos os dias.