Como headhunter e observadora atenta das engrenagens corporativas, poucas dinâmicas me fascinam e preocupam tanto quanto o papel da liderança. Não falo do crachá, do organograma ou do título gravado na porta. Falo do comportamento que, em menos de dois minutos de conversa, revela o futuro de uma equipe e, consequentemente, de toda a organização. O mercado de trabalho é implacável: cargos não fazem líderes; pessoas formam líderes. E, ao longo da minha trajetória, testemunhei tanto o espetáculo do sucesso quanto o drama do fracasso quase sempre guiados pelo mesmo fator determinante: o tipo de maestro que conduz o time.
De um lado, está o líder tóxico, aquele que paralisa. Ele opera a partir da insegurança, governa pelo medo, transforma erros pequenos em falhas irreparáveis e utiliza a informação como ferramenta de controle. O resultado não surpreende: retrabalho, rotatividade, perda de confiança, queda de produtividade e um time que desaprende a avançar. A máxima é conhecida, mas nunca foi tão verdadeira: “Pessoas não pedem demissão da empresa; pedem do líder.” Uma equipe apática e fragilizada costuma ser o rastro mais evidente desse estilo de gestão e nós, headhunters, identificamos esse padrão já na primeira conversa.
Do outro lado, surge o líder inspiracional, aquele que transforma. Não se limita a delegar ele ensina, orienta, compartilha responsabilidades e oferece clareza de propósito. Seu foco está no desenvolvimento de pessoas maduras, capazes e autônomas. Empresas com visão de futuro já entenderam que liderança não é status, é impacto: impacto no capital humano, na cultura, no clima organizacional e na sustentabilidade dos resultados. Equipes fortes são, quase sempre, o reflexo direto de líderes igualmente fortes.
E é aqui que nasce a pergunta incômoda — e necessária: se a liderança é tão decisiva, por que tantos talentos seguem paralisados, esperando por um líder transformador que raramente chega? A resposta pode não ser confortável, mas é libertadora: embora a qualidade da liderança seja crucial, carreira não é um serviço “terceirizável”. O líder inspirador pode ser mentor, patrocinador, facilitador. Ele abre portas, oferece feedback de valor e aponta caminhos. Mas o ato de crescer é exclusivamente seu.
Esperar que sua curiosidade ou maturidade sejam acionadas por alguém de fora é um dos erros mais paralisantes. O desenvolvimento profissional depende das escolhas diárias que cada um faz. Trabalhar com um líder inspirador ajuda, mas, mesmo sob uma liderança tóxica ou mediana, o protagonismo continua sendo seu. Há sempre espaço para agir: buscar aprendizado, criar sua própria governança e focar em soluções não em queixas. Enquanto o líder tóxico prospera na cultura do medo, o profissional de impacto avança apesar do ambiente.
No fim, liderança é uma via de mão dupla. O líder molda o ambiente, mas é a sua escolha diária de evoluir que define quem você se torna e o impacto que entrega. E essa responsabilidade é justamente o que diferencia os profissionais que o mercado disputa daqueles que seguem esperando que alguém os mova.