A transformação digital chegou de vez ao setor de Recursos Humanos no Brasil. Impulsionada pela pandemia, pela escassez de talentos e pela busca por processos mais ágeis, empresas passaram a adotar ferramentas como triagem automatizada de currículos, entrevistas por vídeo com análise preditiva, testes comportamentais com inteligência artificial e chatbots de recrutamento. A digitalização do RH já é realidade, mas a forma como ela vem sendo conduzida ainda levanta dúvidas sobre seus reais impactos para empresas e profissionais.
Os ganhos operacionais são inegáveis. Segundo o portal Mundo RH, a IA aplicada ao recrutamento pode reduzir até 89% das tarefas repetitivas, cortar 86% dos custos e acelerar os processos seletivos em cerca de um dia útil por semana. Já uma pesquisa da QuarkRH com profissionais brasileiros mostra que, entre aqueles que já adotaram essas soluções, 76% perceberam aumento de produtividade, 72% observaram melhorias na qualidade do trabalho e 59% notaram impacto direto na receita.
Casos práticos reforçam essa tendência. A MRV, por exemplo, conseguiu reduzir significativamente o tempo de contratação ao adotar uma plataforma de recrutamento inteligente. A empresa passou a usar inteligência artificial para sugerir candidatos com maior aderência ao perfil buscado e automatizou a comunicação com os talentos por meio de convites integrados ao WhatsApp, segundo relato do próprio time de RH em um estudo de caso publicado pela Recrutei.
Apesar dos resultados, a adesão no Brasil ainda é tímida. Uma pesquisa publicada pela Você RH revelou que apenas 30% dos profissionais de RH do país já usam ferramentas de IA em atividades como análise de dados, apresentações e atendimento interno. A resistência, segundo levantamento do Canaltech, atinge cerca de 70% dos departamentos de RH, que ainda não utilizam a tecnologia, em grande parte por falta de conhecimento técnico, limitações de infraestrutura ou receio de substituição de funções humanas.
Esse contraste se torna ainda mais evidente quando comparado ao nível de aceitação por parte dos próprios trabalhadores. De acordo com a mesma pesquisa da QuarkRH, 87% dos profissionais brasileiros apoiam o uso de IA no ambiente de trabalho e 70% confiam na tecnologia. Além disso, 71% afirmam ter percebido ganhos em eficiência e inovação. No setor de recrutamento, 73% acreditam que a IA transformará os processos seletivos, embora apenas 11% das empresas já a utilizem ativamente, como mostra a análise do portal Mundo RH.
Mesmo onde há implementação, os resultados variam conforme a forma como a tecnologia é aplicada. Muitos candidatos relatam, especialmente nas redes sociais, frustrações por se sentirem avaliados exclusivamente por robôs, sem retorno humano ou clareza nos critérios. Em vez de criar conexões, esses fluxos acabam afastando bons profissionais. Por outro lado, exemplos como o da Vivo mostram que é possível aliar eficiência e diversidade: a empresa relatou uma redução de 73% no tempo de contratação e aumento na inclusão, com 51% das vagas preenchidas por pessoas de grupos diversos, segundo reportagem da CartaCapital.
Digitalizar o RH vai muito além de adotar softwares. Exige rever práticas, capacitar equipes para interpretar dados com criticidade e garantir que os processos, mesmo automatizados, respeitem quem está do outro lado. A tecnologia pode oferecer escala, precisão e economia. Mas escuta, acolhimento e senso de justiça ainda são, e continuarão sendo, tarefas exclusivamente humanas.