domingo, 15 de fevereiro de 2026
Sustentabilidade

Microplásticos já atingem órgãos humanos

Vitória News 17/12/2025 18:16

Presente no cotidiano em diversas formas, cores e funções, o plástico é uma invenção relativamente recente na história da humanidade. A partir da década de 1950, em um cenário de industrialização acelerada no pós-guerra, o material passou a ocupar praticamente todos os aspectos da vida moderna, de embalagens e utensílios a produtos de higiene e limpeza.

O uso massivo, porém, ocorreu sem a devida avaliação dos impactos ambientais e à saúde humana. Décadas depois, estudos científicos vêm revelando consequências preocupantes. Pesquisas já identificaram partículas de microplásticos em órgãos e fluidos do corpo humano, como pulmões, placenta, sangue, leite materno, sêmen e até no cérebro.

Diante do acúmulo de evidências, especialistas defendem que o Brasil avance em políticas públicas capazes de reduzir a produção e o consumo de plásticos descartáveis, considerados um dos principais vetores do problema.

Impactos ambientais e pressão por políticas públicas

Segundo dados citados por especialistas, o Brasil é atualmente o oitavo maior poluidor de plásticos do mundo, despejando cerca de 1,3 milhão de toneladas desse resíduo no oceano todos os anos. Apesar disso, o país ainda não conta com uma legislação específica para enfrentar o problema de forma estruturada.

O Projeto de Lei 2524/2022, conhecido como PL do Oceano Sem Plástico, é apontado como um passo inicial nesse processo. A proposta estabelece diretrizes para uma economia circular do plástico, com foco na redução de descartáveis, estímulo à reutilização e ao refil. O texto, no entanto, está parado há mais de 600 dias na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.

Especialistas ressaltam que o entrave não está na falta de evidências científicas, mas na resistência de setores da indústria. A experiência de políticas públicas em áreas como controle do tabaco é citada como exemplo de que avanços exigem enfrentamento de interesses econômicos.

Atualmente, apenas 9% do plástico produzido no mundo é reciclado. No Brasil, esse índice cai para 1,3%. Além disso, mesmo materiais considerados recicláveis, como o PET, ainda demandam matéria-prima virgem, o que reforça a necessidade de repensar o modelo baseado no descarte.

Microplásticos e riscos à saúde

Pesquisas conduzidas por universidades brasileiras e internacionais demonstram que microplásticos entram no organismo principalmente por duas vias: inalação de partículas suspensas no ar e ingestão de água e alimentos contaminados. Estimativas apontam que uma pessoa pode consumir entre 74 mil e 121 mil partículas de microplástico por ano.

Estudos já identificaram essas partículas no sistema nervoso central, incluindo o bulbo olfatório, região ligada diretamente ao cérebro. Essa descoberta levanta preocupação, especialmente em crianças, cujos órgãos ainda estão em desenvolvimento e são mais vulneráveis a danos celulares.

Pesquisas com animais indicam que micro e nanoplásticos podem atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro, além de provocar inflamações, alterações comportamentais e danos ao DNA. Há também indícios de associação com doenças cardiovasculares, aumento do risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais.

Aditivos químicos e exposição cotidiana

Além das partículas em si, o plástico contém milhares de aditivos químicos responsáveis por características como cor, flexibilidade e resistência. Estima-se que cerca de 16 mil substâncias estejam associadas à fabricação do material, sendo mais de 4 mil consideradas preocupantes por apresentarem toxicidade, persistência ambiental ou potencial de bioacumulação.

O aquecimento do plástico, como em micro-ondas ou máquinas de lavar louça, facilita a liberação desses compostos, permitindo sua migração para alimentos e bebidas. Muitos desses aditivos são classificados como disruptores endócrinos, capazes de interferir no funcionamento hormonal, no desenvolvimento de órgãos e aumentar riscos de doenças como câncer.

Para pesquisadores e entidades de saúde pública, os dados indicam que sem mudanças estruturais na produção e no consumo de plástico, os impactos ambientais e sanitários tendem a se agravar. A transição para uma economia circular e a redução de itens descartáveis dependem de legislação, pressão social e compromisso político.

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