BRASÍLIA, DF E BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que conversou por telefone com a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, nesta quinta-feira (18) para defender a assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia.
O país europeu é um dos obstáculos para o avanço do tratado a tempo da cúpula do Mercosul neste sábado (20), em Foz do Iguaçu.
"Ela [Meloni] ponderou para mim que ela não é contra o acordo. Ela apenas está vivendo um certo embaraço político por conta dos agricultores italianos, mas que ela tem certeza de que é capaz de convencê-los a aceitar o acordo. Ela pediu para que, se a gente tiver paciência, de uma semana, 10 dias, de, no máximo 1 mês, a Itália estará junto com o acordo", disse durante entrevista coletiva a jornalistas.
"Eu liguei hoje a primeira-ministra Meloni. Conversei com ela. Eu disse para ela que a data de 20 de dezembro não foi uma data proposta por nós. O 20 de dezembro foi proposto pela Ursula von der Leyen [presidente da Comissão Europeia] e pelo António Costa [presidente do Conselho Europeu] dizendo que em 19 de dezembro eles votariam em Bruxelas e que viriam aqui para a gente assinar o acordo", afirmou.
"Eu disse para ela que vou colocar o que ela me falou na reunião com o Mercosul e vou propor aos companheiros decidirem o que querem fazer", disse Lula.
A primeira-ministra confirmou em uma nota emitida por seu gabinete que conversou com o presidente brasileiro.
Meloni disse ter "reiterado também ao presidente do Brasil, Lula, que o Governo Italiano está pronto para assinar o acordo assim que forem fornecidas as respostas necessárias aos agricultores". Essas respostas, segue a nota, "dependem das decisões da Comissão Europeia e podem ser definidas em breve".
Meloni está nesta quinta (18) em Bruxelas, reunida com os outros chefes de Estado da UE, em agenda que não contempla diretamente o assunto. Aguarda-se, porém, que o acordo entre na conversa e determine o resultado da votação, aguardada por enquanto para sexta (19), no Conselho da UE.
O futuro do acordo com a União Europeia depende de duas reuniões a partir desta quinta (18) em Bruxelas, na Bélgica.
O grupo liderado pela França e que ganhou apoio decisivo da Itália nos últimos dias quer adiar a aprovação. Alemanha, Espanha e países nórdicos defendem a aprovação imediata e sugerem que a procrastinação terá consequências.
Nesta quinta, Lula afirmou que "sempre soube" que a França, governada por Emmanuel Macron, era contra o acordo UE-Mercosul, mas que a "surpresa" foi a Itália. O petista afirmou que chegou até a conversar com a primeira-dama francesa, Brigitte, "para ela abrir o coração do Macron para fazer o acordo com o Brasil".
"A França não tem muito a perder por causa da agricultura brasileira", declarou o presidente brasileiro.
Segundo o petista, os europeus "não perdem nada" com o acordo. "Quando nós dirigentes queremos fazer, nós temos que fazer. Se não vai ser possível não assinar agora porque não vai estar pronto, eu não posso fazer nada. Vamos aguardar amanhã, a esperança é a última que morre", disse.
Lula disse ainda que o Mercosul está "100% disposto a fazer o acordo, mesmo não ganhando tudo que a gente queria ganhar" e que a medida é mais favorável à União Europeia.
"Essa tentativa de acordo existe há 26 anos. Há 26 anos. Essa coisa evoluiu muito nos últimos anos e nas tratativas que tivemos com a União Europeia, tanto com a Úrsula quanto com o António Costa, eles assumiram o compromisso de que esse ano a gente fecharia o acordo. Da parte do Mercosul está tudo resolvido", declarou.
Durante reunião ministerial na quinta (17), Lula disse que o governo não apoiará mais o acordo entre o Mercosul e a União Europeia caso o tratado não receba aval dos europeus a tempo da assinatura prevista.
"Eu agora estou sabendo que eles não vão conseguir aprovar [no Conselho Europeu]. Está difícil, porque a Itália e a França não querem fazer por problemas políticos internos", disse Lula na ocasião. "E eu já avisei para eles, se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente. É bom saber. Faz 26 anos que a gente espera esse acordo. 26 anos."
O acordo tem como objetivo reduzir ou zerar tarifas e eliminar outras barreiras de importação e exportação.
Ele começou a ser negociado em 1999 na Cúpula Mercosul-UE no Rio de Janeiro, quando foi anunciado o objetivo de se iniciar as tratativas.
As conversas entre UE e Mercosul foram inicialmente concluídas em 2019, mas o texto foi reaberto e aprovado apenas em dezembro de 2024.
No caso do Mercosul, o acordo prevê a eliminação de tarifas que, a depender do setor, pode ser imediata ou gradual ao longo de prazos que variam de 4 a 15 anos (com exceções para o setor automotivo). Isso cobre aproximadamente 91% dos bens das importações brasileiras de produtos da UE.
Para a União Europeia, a liberação é prevista de forma imediata ou gradual em prazos que variam de 4 a 12 anos. Os produtos afetados correspondem a aproximadamente 95% dos bens brasileiros exportados ao bloco europeu.
O acordo alcançaria uma área de 722 milhões de pessoas, com economias que juntas somam US$ 22 trilhões, segundo o governo brasileiro.