SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O dólar fechou em alta de 0,51% nesta quarta-feira (10), cotado a R$ 5,465, com o mercado repercutindo a decisão de juros dos Estados Unidos.
O Fed (Federal Reserve, banco central dos norte-americano) optou por cortar a taxa em 0,25 ponto percentual, para a banda de 3,5% e 3,75% -em linha com as expectativas da maioria dos operadores. A decisão atenuou a alta da moeda no Brasil, que chegou à máxima de R$ 5,490 ainda contaminada pelas expectativas dos operadores em relação à corrida eleitoral de 2026.
Já a Bolsa, que já estava em leve alta antes da divulgação do Fed, acelerou ganhos e fechou em valorização de 0,69%, a 159.074 pontos.
Jerome Powell, presidente do Fed, afirmou que a política de juros do banco central está bem posicionada para responder ao que está por vir para a economia e se recusou a indicar quais serão os próximos passos do comitê.
"Eu destacaria que, tendo reduzido nossa taxa de juros em 0,75 ponto percentual desde setembro e 1,75 ponto desde setembro do ano passado, a taxa básica está agora dentro de uma ampla faixa de estimativas de seu valor neutro e estamos bem posicionados para esperar para ver como a economia evolui", disse Powell em entrevista coletiva após a decisão. Ele acrescentou que "a política monetária não está em um curso predefinido" e que o comitê tomará decisões "reunião a reunião".
A fala de Powell "foi uma sinalização que mantém a porta aberta, sem garantir continuidade imediata do ciclo", afirma João Duarte, sócio da One Investimentos.
Apesar da expectativa pelo corte de 0,25 ponto ter sido quase unânime entre os agentes do mercado, a decisão dentro do comitê não foi um consenso.
O placar foi de 9 votos favoráveis à redução de 0,25 ponto, enquanto os três votos restantes questionaram o tamanho do corte. O diretor Stephen Mirran, indicado neste ano pelo presidente Donald Trump, voltou a defender uma redução de 0,5 ponto percentual, assim como o fez na reunião anterior, enquanto Jeffrey R. Schmid se manteve favorável à manutenção da taxa. Austan Goolsbee também defendeu a estabilidade.
Powell afirmou que, diante da dinâmica inflacionária e do mercado de trabalho, é esperado que hajam discordâncias dentro do comitê.
As dissidências têm feito cada vez menos efeito no mercado, diz Mauricio Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter, "dada a divisão mais política sendo normalizada". O mercado, segundo ele, espera um novo presidente do Fed mais alinhado a Trump no ano que vem -ou seja, mais inclinado a cortes de juros.
Por outro lado, o Fed passou a prever maior crescimento do PIB em 2026 e expectativas de inflação mais baixas, além de ter anunciado que está voltando a comprar títulos do Tesouro norte-americano sem limitações.
"A decisão de hoje do Fed, que espera mais crescimento, menos inflação e com a volta de injeção de liquidez 'sem limites' é positivo para os mercados, que devem reagir positivamente nos próximos dias", diz Mauricio Garret, chefe da mesa de operações internacionais do Inter. Os índices de Wall Street marcaram forte alta após a entrevista coletiva, com o S&P500 avançando 0,7%, o Dow Jones, 1,05%, e a Nasdaq, 0,3%.
O dólar, além disso, caiu ante a maior parte das divisas globais. O índice DXY, que o compara em relação a uma cesta de outras seis moedas fortes, registrou queda de 0,56%, a 98,66 pontos.
O movimento no Brasil se descolou do exterior por causa da cautela dos investidores em relação ao cenário político.
Deputados aprovaram nesta madrugada um projeto de lei que reduz as penas de condenados pela tentativa de golpe de Estado do dia 8 de janeiro de 2023 -incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), cujo período no regime fechado pode passar de quase 7 anos para 2 anos e 4 meses.
Há a leitura de que, com a possível redução da pena de Bolsonaro, aumentariam as chances de o senador Flávio Bolsonaro (PL) desistir da candidatura à Presidência em 2026. Isso colocaria na disputa novamente o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome favorito da Faria Lima.
Apesar da aprovação na Câmara, o projeto ainda precisa passar pelo Senado e, posteriormente, ser sancionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Se o texto for vetado por Lula, o Congresso ainda poderia votar pela derrubada do veto. Há ainda dúvidas sobre a postura do STF (Supremo Tribunal Federal) quanto à validade da proposta.
"A verdade é que 2026 atropelou 2025", afirmou o responsável pela área de renda variável da Criteria, Thiago Pedroso. Ele afirma que o mercado amanheceu tentando entender se o PL da Dosimetria é "moeda de troca real ou só mais um capítulo da novela Brasília 40 graus".
"O clima institucional segue pesado e qualquer ruído extra está sendo precificado quase instantaneamente."
A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central também segue no radar, mas, com a publicação esperada para após o fechamento do mercado, por volta das 18h30, os efeitos da definição sobre a taxa Selic serão sentidos na sessão de quinta-feira.
A expectativa aqui é de manutenção da taxa Selic em 15% ao ano, e os operadores seguirão atentos às sinalizações do BC sobre os próximos passos.
Parte deles espera que a autoridade monetária inicie o ciclo de cortes em janeiro; outra parte, em março.
Além disso, na cena internacional, as Forças Armadas americanas interceptaram um petroleiro em águas próximas à costa da Venezuela, em escalada mais grave da crise militar entre os dois países até aqui.
A informação foi confirmada por Trump em conversa com a imprensa. O petróleo Brent, referência para os mercados internacionais, avançava 1,2%, a US$ 62,68 o barril.