segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Economia

Congresso do México aprova aumento de tarifas contra Brasil, China e outros países

FolhaPress 11/12/2025 21:32

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Senado do México aprovou nessa quarta-feira (10) o aumento das tarifas de importação sobre Brasil, China e outros nove países com os quais os mexicanos não têm acordo comercial.

O projeto de lei, votado em meio à pressão comercial dos Estados Unidos, foi aprovado por 76 votos, 5 contra e 35 abstenções, em uma sessão que se estendeu até a noite.

Na terça-feira (9), a Câmara dos Deputados já havia votado a proposta da presidente Claudia Sheinbaum, que agora precisa publicá-la para que as novas tarifas entrem em vigor em 1º de janeiro de 2026.

Além de China e Brasil, os países afetados incluem África do Sul, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Índia, Indonésia, Nicarágua, Tailândia, Taiwan e Vietnã.

As tarifas afetarão 1.463 classificações tarifárias em 17 setores como automotivo, têxtil, vestuário, siderúrgico, plásticos, eletrodomésticos, móveis e calçados, entre outros, principalmente produtos chineses. Dessa relação, 316 classificações não têm cobrança de impostos atualmente.

A proposta inicial incluía taxas de até 50%, mas a maioria foi reduzida para cerca de 20% ou 35%, e apenas em alguns casos a taxa original foi mantida, como é o caso dos carros. A cobrança de 50% visa impactar principalmente o mercado chinês, responsável por 20% das vendas de veículos no México em novembro, de acordo com a Associação Mexicana de Distribuidores Automotivos.

O México foi o maior comprador mundial de carros fabricados na China no primeiro semestre deste ano, segundo a consultoria Automobility, de Xangai.

O ministério do Comércio da China afirmou que a medida traz "prejuízos substanciais" e lamentou a decisão unilateral mexicana.

No Brasil, as montadoras buscam entender se as tarifas afetarão o acordo bilateral vigente desde 2003, que prevê livre comércio no setor automotivo, incluindo peças e maquinário agrícola.

Representantes da Anfavea (associação das montadoras) avaliam que as taxas não se aplicam nesse caso, mas têm encontrado dificuldade em acessar os termos definidos no México. Caso não haja incidência sobre a indústria automotiva, há a percepção de que a cobrança sobre importados chineses pode favorecer o país.

Entre janeiro e outubro, 66.474 veículos produzidos no Brasil foram exportados para o mercado mexicano, de acordo com a entidade que representa as montadoras. O resultado representa uma queda de 17,3% em relação ao mesmo período de 2024.

Já a China exportou mais de 400 mil veículos para o México entre janeiro e setembro, segundo a Caam (associação das montadoras chinesas).

Para a Anfavea, a perda de participação dos carros brasileiros se deve principalmente à chegada dos produtos chineses em grande volume àquele mercado. Com as tarifas, o automóvel nacional tipo exportação pode se tornar mais competitivo.

Não se tratam apenas de modelos de marcas oriundas da China, mas também de automóveis produzidos lá por montadoras ocidentais. É o caso do Chevrolet Aveo, segundo carro mais vendido naquele país atualmente.

Montado na planta de Shandong em parceria com a Saic, o modelo chinês da General Motors custa o equivalente a R$ 92 mil.

Já a indústria siderúrgica brasileira não deve ser tão afetada pela medida, uma vez que o aumento dos impostos não inclui os aços semiacabados, grande maioria das exportações brasileiras para o México.

Existe ainda outra dúvida que torna difícil, neste momento, estimar o impacto do tarifaço mexicano para as exportações brasileiras. Além do tratado automotivo, México e Brasil são signatários de um acordo de complementação econômica que prevê concessões recíprocas de preferência para cerca de 800 posições tarifárias.

O alcance desse entendimento, no entanto, é limitado. Mesmo que os mexicanos entendam que a elevação de impostos não se aplica sobre esse acordo, o alívio seria limitado.

Os senadores mexicanos que se abstiveram da votação argumentaram que o projeto de lei foi elaborado às pressas, sem analisar seu impacto sobre a inflação, e em resposta à pressão do presidente dos EUA, Donald Trump.

Em apoio à reforma, os legisladores do partido do governo enfatizaram que ela busca fortalecer o setor industrial do México, promover a criação de empregos e expandir as cadeias de suprimentos.

A proposta "tem como único objetivo fortalecer a economia nacional", afirmou o senador Juan Carlos Loera, do partido governista Morena, durante o debate.

Segundo a emissora de televisão N+, os produtos impactados representam US$ 52 bilhões das importações do México, o que representa 8,6% do total. A expectativa do governo é que 320 mil empregos sejam preservados no país com a medida.

O ministério das Finanças do México prevê arrecadar US$ 2,5 bilhões a mais no próximo ano com as tarifas de importação.

PRESSÕES DOS EUA

Sheinbaum apresentou a proposta em setembro, em meio à crescente pressão comercial de Trump e acusações de que o México é a porta de entrada para produtos chineses nos Estados Unidos.

O México, juntamente com o Canadá, prepara-se para negociar a renovação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (T-MEC) com os Estados Unidos, enfrentando novas exigências da Casa Branca.

Trump também alertou repetidamente que gostaria de usar a força militar contra os cartéis de drogas no México, o que Sheinbaum considerou inaceitável. Recentemente, ele suavizou sua posição, à medida que o México aumentou a cooperação em segurança, imigração e comércio.

O bloco envolvendo os três países da América do Norte abrange 500 milhões de pessoas e representa 30% do PIB global, concedendo ao México acesso privilegiado aos EUA. Quase 90% de suas exportações para os EUA estão atualmente isentas de tarifas, uma vantagem competitiva que Sheinbaum está determinada a preservar.

"Essas tarifas coincidem com uma onda de restrições comerciais nos Estados Unidos, o que levanta uma questão central: o México está definindo sua própria política comercial ou está reagindo a Washington, ou pior, obedecendo a Washington?", questionou Mario Humberto Vázquez, do partido da oposição PAN.

Sheinbaum rejeitou essas críticas, argumentando que essa medida faz parte do Plano México, um projeto lançado por ela para fortalecer o mercado interno, reduzir a dependência de importações de terceiros países e gerar uma maior proporção de conteúdo nacional.

CHINA FALA EM PREJUÍZO SUBSTANCIAL

Após a aprovação do projeto nessa quarta, a China afirmou que o aumento das tarifas "prejudicará substancialmente" o país e os demais parceiros comerciais do México. O ministério de Comércio chinês informou que solicitou ao governo mexicano que "corrija suas práticas errôneas de unilateralismo e protecionismo o mais rápido possível".

O ministério informou que uma investigação sobre barreiras comerciais, iniciada em setembro, referente ao México, está em andamento.

A China é o segundo maior exportador para o México, depois dos EUA, tendo vendido US$ 130 bilhões em mercadorias para os mexicanos no ano passado. Os EUA venderam US$ 334 bilhões.

A presidente do México afirmou que o intuito não é entrar em conflito com a China. "Nosso interesse não é gerar conflito com nenhum país do mundo; respeitamos muito a China e temos ótimas relações com ela. O motivo desses ajustes na legislação é fortalecer a economia nacional", disse Sheinbaum.

Diversos setores e indústrias manifestaram sua oposição à iniciativa. Amapola Grijalva, representante da Câmara de Comércio México-China, alertou à AFP que ela poderia impactar a inflação e que a construção de uma cadeia de suprimentos mexicana exigiria tempo e investimento.

Na avaliação da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil), a decisão não terá muito impacto para o setor, já que o México é o nono principal destino das suas exportações e apenas alguns produtos, como os ligados a lã e seda, foram afetados.

Entre janeiro e novembro, as vendas de têxteis ao México totalizaram US$ 28 milhões, uma queda de 22% na comparação com o mesmo período do ano passado.

"O México não é um destino muito representativo. Mesmo assim, estamos alertas a essas movimentações tarifárias porque mostram uma tendência no mundo", afirmou o diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel. "Temos interesse de avançar nas negociações com o México, mas um acordo nunca deslanchou."

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