SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Casa dos Ventos, uma das maiores geradoras de energia do Brasil, e a Vestas, fabricante dinamarquesa de aerogeradores, anunciaram nesta quarta-feira (17) um contrato de fornecimento de 184 turbinas capazes de gerar 828 MW (megawatts) de energia em um novo parque eólico no Piauí. O anúncio marca a retomada dos investimentos na indústria eólica do país, parada desde 2023.
De acordo com as empresas, o empreendimento, localizado entre os municípios de Dom Inocêncio, Lagoa do Barro e Queimada Nova, receberá R$ 5 bilhões em investimentos. A maior parte da energia gerada será destinada a data centers no nordeste e no sudeste, além de projetos de hidrogênio verde.
O início das obras de construção está previsto para 2026 com comissionamento final previsto para 2028. Além do fornecimento dos aerogeradores e responsabilidade pela execução do projeto de construção, a Vestas será responsável pelos serviços de operação e manutenção do empreendimento por 25 anos.
O empreendimento dá ânimo à indústria eólica do Brasil, que viu fabricantes de aerogeradores saírem do país nos últimos anos, à medida que o excesso de energia gerado e o barateamento de placas solares frearam a assinatura de novos contratos com geradoras.
O último anúncio desse porte no setor foi em abril de 2023, quando as duas empresas fecharam um negócio de R$ 9 bilhões para instalar e manter em operação 1,3 GW (gigawatts) de energia em dois parques eólicos na Bahia e no Rio Grande do Norte.
O Piauí possui um grande potencial eólico e é hoje o terceiro maior gerador eólico do Brasil, com ventos com velocidade média acima de 12 m/s em algumas áreas.
É incerto, no entanto, os impactos que o novo parque pode trazer à rede elétrica do estado, o terceiro que mais recebe cortes de energia do ONS (Operador Nacional do Sistema), seja por excesso de geração ou por falta de infraestrutura de escoamento.
De acordo com o órgão, de 1º de janeiro de 2025 até a última terça-feira (16), os cortes no estado foram de 415 MWmed (megawatts médios), sendo que os pontos de conexão com maiores volumes cortados estão na mesma região onde será instalado o parque da Casa dos Ventos (em um dos casos, os cortes chegam a quase 20% da geração total).
A Casa dos Ventos não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre o tema.
O anúncio também joga luz numa preocupação já manifestada entre especialistas do setor, que temem que a chegada de novos data centers ao país possa agravar a geração em excesso de energia no país. Isso porque há um temor de que as novas cargas sejam acompanhadas de novos parques de energia, sem aproveitar os excessos já existentes.
Em sua conta no Linkedin, o presidente da Vestas no Brasil disse que "para que esse novo ciclo se consolide, o setor precisa endereçar desafios estruturais que ainda limitam o pleno aproveitamento da energia renovável -entre eles, o curtailment."
"Superar esse gargalo é essencial para garantir previsibilidade, eficiência sistêmica e a captura integral do valor da energia limpa produzida no Brasil, por meio de uma agenda coordenada entre agentes, planejamento de longo prazo e marcos regulatórios alinhados à nova realidade do sistema elétrico", afirmou.
Entre membros do governo, ONS e Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), há a defesa de que os cortes precisam ser encarados como risco de investimento; já a indústria eólica atua para que haja compensação. Em novembro, o vice-presidente Geraldo Alckmin, no exercício da Presidência da República, vetou trechos de uma medida provisória que previam uma compensação de R$ 7 bilhões em cortes.