O caso do Banco Master, liquidado pelo Banco Central depois de semanas de fumaça e silêncio protocolar, devolveu ao debate um personagem que só aparece quando a casa já está pegando fogo: o Fundo Garantidor de Créditos. Criado para evitar pânico financeiro, ele age como um seguro coletivo mantido pelos próprios bancos, limitado a R$250 mil por CPF ou CNPJ.
O fundo está longe de ser mero figurante. Entre 1995 e 2020, foi acionado pelo menos 37 vezes. O ano de 1997, com seis intervenções, virou uma espécie de maratona de testes de estresse do sistema bancário. Houve períodos de calmaria — nove anos sem tocar no caixa de emergência — mas, no Brasil, tranquilidade costuma ser apenas o intervalo entre um problema e o próximo.
Alguns episódios marcaram época. O mais célebre deles é o do Banco Bamerindus, cuja liquidação começou em 1997 e só terminou em 2012. Ao longo desse processo interminável, o FGC teve de cobrir mais de R$5 bilhões em dívidas. Era um banco gigante, com 3 milhões de correntistas e mais de 1.200 agências. O desastre levou o Banco Central a revisar regras e apertar parafusos de supervisão que claramente estavam frouxos.
Outro caso emblemático foi o do Banco Neon, em 2018, quando problemas no pagamento de rendimentos de CDBs levaram à intervenção e à liquidação extrajudicial. O FGC ressarciu os investidores enquanto o negócio renascia como Neon Pagamentos, sob nova direção. A marca sobreviveu, lembrando que nem toda queda é definitiva.
Já o Panamericano rendeu um enredo à parte. À beira de um abismo contábil, o banco de Silvio Santos recorreu ao FGC para um empréstimo de R$2,5 bilhões, oferecendo como garantia parte do seu grupo empresarial. O fundo, dessa vez, atuou como credor, e a instituição escapou da liquidação. O banco se reequilibrou e hoje exibe índices sólidos.
Esse histórico torna o episódio do Master menos surpreendente do que parece. A liquidação escancarou aquilo que muitos preferiam ignorar: quem tinha até R$250 mil deve recuperar a maior parte do que perdeu. Quem tinha mais, dançou — e dançou ao som de uma trilha que toca desde 2013, ano em que o teto da garantia foi estabelecido e jamais revisado. Ao longo dessa década, o país atravessou inflação, crises políticas, pandemia, recessões e juros em looping, mas o limite da proteção permaneceu imóvel, como se fosse naturalmente imune à realidade.
Se tivesse sido corrigido pela inflação acumulada, o teto de cobertura hoje deveria estar próximo de R$400 mil. O congelamento produziu um efeito invisível, porém devastador: reduziu o alcance da garantia num momento em que o sistema financeiro se expandiu, pulverizou investimentos e multiplicou intermediários digitais. Quanto mais o país avança, menor parece a proteção efetiva — uma contradição que ninguém se dispõe a ajustar.
No caso Master, essa defasagem se materializou num rombo que começou em R$12 bilhões, segundo investigação da Polícia Federal, e rapidamente ganhou versões ampliadas, chegando a R$49 bilhões em estimativas de bastidores. As prisões de ex-executivos, a tentativa frustrada do BRB e a sucessão de comunicados apressados apenas reforçaram o enredo clássico dos escândalos financeiros: gavetas mal fechadas, números conflitantes e biografias revisadas às pressas.
Diante desse cenário, é inevitável perguntar onde estavam a fiscalização do Banco Central e as agências de avaliação de risco. Rombo bilionário não aparece de repente, como tempestade de verão. A Fitch Ratings, única agência que avaliava o Master com visibilidade pública, elevou o rating nacional do banco para A-(bra) em 2024 — e, quando o castelo começou a ruir, precisou rebaixar a nota até chegar ao temido “D”. Moody’s e S&P sequer tinham ratings amplamente divulgados. A impressão é incômoda: o farol da supervisão acende, mas nem sempre a tempo.
O FGC continua sendo vendido como o grande estabilizador dos pequenos investidores. E, para quem se mantém dentro do limite congelado, ele de fato é. Já para quem acreditou que estabilidade nominal significava estabilidade real, sobrou a constatação de que os R$250 mil de 2013 não são os mesmos R$250 mil de 2025. Enquanto isso, investidores mais atentos pulverizam aplicações entre várias instituições; outros migram para os bancos grandes, alimentando justamente a concentração que o discurso oficial diz combater.
Nos bastidores, volta a circular a ideia de indexar automaticamente o teto da garantia à inflação. Mas, entre a prudência e a paralisia, a paralisia sempre parece vencer.
No fim, o caso Master expõe o velho paradoxo brasileiro: criamos um fundo para reforçar a confiança, mas deixamos sua proteção congelada até corroer parte dela. Para quem tinha pouco, ele continua sendo um colchão. Para quem tinha mais, virou apenas lembrança de um número que ficou muito estreito. E, como sempre, todos explicam — mas quase ninguém se responsabiliza.