A igualdade racial segue como um objetivo distante no Brasil, segundo ativistas negras ouvidas para o Dia da Consciência Negra. Apesar de avanços importantes, como políticas afirmativas e a demarcação de territórios quilombolas, o país ainda convive com retrocessos, violência racial e movimentos que negam o racismo.
Avanços e retrocessos no combate ao racismo
Para a assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), Carmela Zigoni, há pouco a ser comemorado quando se fala em equidade racial. Ela aponta o crescimento de discursos conservadores e de episódios de violência explícita, citando a invasão da escola Emei Antônio Bento, em São Paulo, onde policiais entraram armados após o pai de uma aluna se incomodar com atividades relacionadas à cultura afro-brasileira — conteúdo obrigatório por lei.
Carmela avalia que a gestão federal anterior retirou a política de igualdade racial do centro das ações públicas, o que representou um retrocesso. Em sua análise, a retomada dessa agenda pelo governo atual, com reinserção no plano plurianual e investimentos para regularização fundiária quilombola, representa um avanço essencial.
A ativista Lúcia Xavier, fundadora da ONG Criola, reforça que a troca de governos melhorou o ambiente político, mas não significa que a igualdade racial tenha avançado de forma estrutural. Para ela, a população negra ainda enfrenta graves barreiras: violência policial, falta de oportunidades no mercado de trabalho e dificuldades para se manter na universidade.
Já Alane Reis, da Articulação de Mulheres Negras Brasileiras e do Instituto Odara, destaca conquistas históricas, como ações afirmativas em universidades e concursos públicos, além do direito constitucional dos quilombolas. Ela aponta que essas políticas romperam o mito da democracia racial, embora ainda haja resistência e desinformação.
Na análise de Alane, políticas específicas são fundamentais para garantir oportunidades e corrigir desigualdades que atingem especialmente as mulheres negras, que seguem na base dos indicadores sociais. Mesmo assim, ela observa mudanças culturais importantes entre jovens e crianças negras, que passaram a valorizar sua identidade e estética.
Dados do Ministério dos Direitos Humanos mostram que, entre janeiro e 16 de novembro de 2025, o Disque 100 recebeu 13.813 denúncias relacionadas à igualdade racial, somando 26.901 violações. São Paulo lidera as notificações, seguido por Rio de Janeiro e Minas Gerais. As mulheres representam mais da metade das vítimas.