Por Marcelo Rossoni
Quem percorre a BR-101 no Espírito Santo aprende, logo nos primeiros quilômetros, que a rodovia não foi pensada para ser compreendida. Ela foi desenhada para ser aceita. O motorista segue, paga, segue de novo e tenta entender por que a duplicação aparece em pedaços, como se alguém tivesse decidido melhorar a estrada aos solavancos, respeitando mais o humor do contrato do que a lógica do tráfego. Não é exatamente uma rodovia; é um quebra-cabeça asfaltado.
Há trechos duplicados que começam de forma promissora, com duas pistas largas, sinalização nova e aquela breve sensação de modernidade. Poucos quilômetros depois, tudo se estreita de novo, como se a obra tivesse sido interrompida por um súbito surto de contenção orçamentária ou por uma crise existencial do projeto. O motorista reduz a velocidade, ajusta a paciência e segue adiante, tentando não pensar muito no pedágio que acabou de pagar para acessar um pedaço de estrada que, convenhamos, não parece exatamente novo.
Essa alternância virou uma espécie de marca registrada. A duplicação não se espalha; ela salta. Não avança de forma contínua; aparece aqui, some ali, reaparece adiante. Quem observa de fora poderia imaginar que se trata de uma estratégia sofisticada de engenharia. Quem usa a rodovia todos os dias tende a formular hipóteses mais simples, embora menos elegantes: talvez seja só uma forma eficiente de dizer que a cobrança está em dia, enquanto a entrega segue em ritmo próprio, sem pressa, sem constrangimento.
No Norte do Estado, especialmente na região de Linhares e São Mateus, a sensação é de que o tempo corre em outra velocidade. Ali, a rodovia acumula caminhões, ônibus, carros pequenos, tratores ocasionais e uma convivência forçada entre tráfego pesado e acessos urbanos improvisados. A duplicação, prometida, explicada, redesenhada em apresentações técnicas, permanece como um projeto sempre iminente, daqueles que estão eternamente “no planejamento”. Enquanto isso, o pedágio funciona com precisão suíça, cobrando pontualmente por uma estrada que exige do motorista atenção redobrada e fé constante.
Houve também o capítulo ambiental. Quando surgiram obstáculos relacionados a áreas sensíveis, o zelo apareceu com força. Barreiras foram erguidas, estudos exigidos, condicionantes multiplicadas. Tudo legítimo, necessário e correto. O problema é que, depois de estabelecidas as barreiras, o mesmo empenho não foi aplicado para encontrar soluções. O impasse virou argumento, o argumento virou atraso e o atraso virou paisagem.
A cada praça de pedágio, renova-se a liturgia do inconformismo silencioso. Ninguém discute com a cancela. Ela sobe, o carro passa e a indignação segue viagem. O motorista não exige luxo, nem espetáculo. Ele só estranha a matemática. Paga como se estivesse em uma rodovia plenamente duplicada e trafega como se estivesse em uma estrada em permanente transição.
Nos discursos oficiais, a rodovia é apresentada como um grande projeto de longo prazo. Para quem a utiliza, o prazo é sempre curto: o susto da ultrapassagem apertada, o engarrafamento inesperado, o trecho urbano sem marginal, a conversão mal sinalizada. O longo prazo é confortável para quem não precisa reduzir bruscamente a velocidade porque a pista simplesmente acaba.
O tema voltou à mesa institucional. Questionamentos surgiram, audiências foram anunciadas, pedidos de explicação enviados. A concessionária foi chamada a explicar por que tanto foi cobrado e tão pouco parece ter mudado aos olhos de quem está atrás do volante. Ainda assim, o ceticismo acompanha cada nova promessa.
O usuário da BR-101 não pede milagres. Ele só estranha a lógica. Paga como se estivesse em uma estrada pronta e trafega como se estivesse sempre em obras. Talvez o incômodo maior seja perceber que a duplicação parece ter sido pensada menos como solução contínua e mais como um exercício de fragmentação.
No fim, a BR-101 segue alternando pistas, promessas e pedágios. E o usuário segue também, aprendendo que, naquela estrada, a duplicação não é apenas uma questão de asfalto. É, sobretudo, uma questão de paciência.