CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Lares tomados por uma ebulição violenta de sentimentos são a especialidade de Joachim Trier. Mesmo que no imaginário popular os países nórdicos, como sua Noruega natal, não sejam conhecidos pelas emoções à flor da pele, seu cinema costuma mergulhar no dramalhão.
É uma marca do novo "Valor Sentimental" e de tantos outros roteiros do cineasta, que avançam mais por causa do que os personagens sentem do que por aquilo que fazem. Ele atribui essa particularidade às mudanças bruscas do clima e sua influência no comportamento de seus compatriotas escandinavos.
"Você pode nadar no oceano no verão e depois não conseguir sair de casa no inverno. Eu acho que isso nos afeta muito, afeta a maneira como expressamos nossos sentimentos, a depender da época do ano", disse ele a este repórter no último Festival de Cannes, de onde saiu com o grande prêmio.
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"Somos mais reservados, não nos expressamos muito. Não somos como vocês, latinos. Guardamos e controlamos muita coisa dentro da gente, mas no fim o mecanismo dentro de cada um de nós é o mesmo. Somos todos indivíduos que sentem", faz coro Stellan Skarsgard, sueco que estrela o longa.
Este controle interno de sensações rege "Valor Sentimental", com seus personagens complexos que guardam traumas, medos e desejos no íntimo. Quando eles são finalmente exteriorizados, vem a avalanche. Uma avalanche que ameaça a relação central da história, entre um pai e as duas filhas.
Gustav Borg, papel de Skarsgard, é um cineasta celebrado e um tanto narcisista, que quando se fazia presente na infância das filhas, era para protagonizar desentendimentos com a mulher. Depois de anos afastados, ele busca a reaproximação com Nora e Agnes, agora já adultas.
Esta reconexão, porém, é carregada de segundas intenções. Ele pretende usar a casa da família, testemunha de diversas dores e memórias, como cenário de seu próximo filme, extremamente pessoal. Tanto que ele convida uma das filhas, atriz de teatro, para protagonizá-lo. Ela recusa, mas não deixa de sentir incômodo quando vê uma jovem americana em seu lugar.
O drama familiar caiu nas graças dos críticos e jornalistas americanos que viram "Valor Sentimental" em Cannes. Os europeus, por sua vez, penderam para o iraniano Jafar Panahi, de "Foi Apenas Um Acidente", e o brasileiro Kleber Mendonça Filho, de "O Agente Secreto", nas conversas informais que tomavam o Palácio dos Festivais.
Não à toa, o longa de Trier chegou à corrida do Globo de Ouro capitaneando a forte presença estrangeira na premiação, com oito indicações, incluindo melhor filme de drama, filme em língua estrangeira, direção e roteiro.
Skarsgard compete em ator coadjuvante, enquanto Elle Fanning e Inga Ibsdotter Lilleaas aparecem na corrida de atriz coadjuvante. Renate Reinsve, elogiadíssima por outra parceria com Trier, "A Pior Pessoa do Mundo", tenta vencer em melhor atriz de drama.
Forma-se, com "Valor Sentimental", "Foi Apenas Um Acidente" e "O Agente Secreto", uma disputa acirradíssima pelo Oscar de filme internacional do ano que vem, bem como para outro punhado de categorias. Os indicados ao homenzinho dourado serão anunciados em 22 de janeiro, e a expectativa é que o norueguês faça frente até mesmo a produções americanas, como "Uma Batalha Após a Outra" e "Hamnet".
Trier não deve ficar feliz por entrar no caminho dos brasileiros, porém. Ele é fã do Brasil, disse com entusiasmo no festival francês, ainda sem imaginar que frequentaria as mesmas festas e listas que Mendonça Filho pelos próximos meses.
"I fucking love Brazil" ou amo o Brasil para caralho , disse o diretor, em inglês, de forma um tanto chocante, quebrando a imagem polida que mantinha na entrevista até então. O norueguês discreto e centrado dá espaço para um mais animado e extrovertido por alguns minutos, que fala sobre seu amor por artistas como Milton Nascimento e Tom Jobim.
"Eu cresci ouvindo a música de vocês, já fui várias vezes para o Brasil. Sou fã da música, da comida, da cultura. Com frequência penso que legal teria sido nascer no Brasil, mas acho que meu cinema seria bem diferente."
Criado em Oslo, Trier nasceu na Dinamarca e tem dupla cidadania nenhuma delas brasileira, para sua frustração. Seu pai era um técnico de som de cinema, enquanto o avô era diretor e roteirista de filmes experimentais, além de voz ativa em institutos de audiovisual na Noruega. É curioso que ele tenha herdado o ofício dos antepassados e que, agora, com seu maior lançamento, fale tanto sobre traumas e memórias passados de geração em geração.
"Eu tenho certeza que peguei muita coisa emprestada da minha vida pessoal, inconscientemente", diz ele, que é pai de um menino e uma menina. "Gustav é muito diferente de mim e do Stellan. Mas agora que o filme está terminado é engraçado ver como nos relacionamos de forma profunda com alguns momentos de Valor Sentimental."
Skarsgard é outro que integra um clã cinematográfico. Naquele mesmo Festival de Cannes, o filho Alexander Skarsgard também esteve presente, com o provocativo e elogiado "Pillion" Stellan não escondia o orgulho e disse que os dois foram a algumas festas juntos para comemorar. No seu espólio estão ainda Bill, nas telinhas com "It: Bem-Vindos a Derry", e Gustaf Skarsgard, que estrelou a série "Vikings".
Interpretar Gustav, ele diz, não mudou sua relação com os oito filhos, mas o fez entender melhor o papel de um pai. "E não há pais perfeitos, isso ficou claro para mim. Os filhos devem aceitar isso, mas você também não pode forçá-los a entender o seu lado. A chave é o perdão, algo com que Valor Sentimental joga muito", afirma.
Com seu título, o filme carrega ainda a importância da casa de família para os personagens. Não são só as disfuncionalidades daquele núcleo protagonista que ela testemunha o imóvel esteve na família de Gustav por gerações, o que ajuda o espectador a ter certa empatia por este pai outrora ausente. Flashbacks dele ainda criança interrompem a narrativa vez ou outra, costurando passado e presente.
Como o nome sugere, "Valor Sentimental" se ancora num sentimentalismo que, em Cannes e provavelmente agora, em sua estreia nas salas brasileiras, deve provocar um turbilhão de sensações no espectador mais por forçá-lo a visitar questões pessoais do que por simpatizar com os personagens em cena.
VALOR SENTIMENTAL
- Quando Estreia nesta quinta (18), nos cinemas
- Classificação 14 anos
- Elenco Renate Reinsve, Stellan Skarsgard e Elle Fanning
- Produção Noruega, Alemanha, Dinamarca, França, Suécia, Reino Unido, Turquia, 2025
- Direção Joachim Trier