SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sobre o palco, dezenas de músicos trajando roupas sociais tocam instrumentos como trompas, trompetes, violinos e violoncelos. Diante da orquestra, a plateia está concentrada. É como se as pessoas estivessem mesmerizadas pelo som que ecoa pela sala de concerto, um templo erguido em celebração à música clássica.
Não estamos, porém, na Sala São Paulo, no centro da capital paulista, tampouco na opulenta Musikverein, lar da Filarmônica de Viena. Trata-se do recém-inaugurado Teatro Baccarelli, a primeira sala de concerto em uma favela do Brasil.
Construído em Heliópolis, a segunda maior favela de São Paulo, o equipamento cultural abriu as portas nesta terça-feira (25), com um concerto da Orquestra Sinfônica Heliópolis. O espaço, no entanto, não será restrito à música erudita.
Além de apresentações de balé e sessões de filmes, o teatro também será palco de eventos de funk, rap e trap. Com isso, o local une o erudito ao popular, manifestações normalmente tratadas como antagônicas no cenário musical.
"O teatro estará aberto a todos os artistas periféricos da nossa cidade. Por isso, queremos receber diversas linguagens", diz Edilson Ventureli, diretor-executivo do Instituto Baccarelli.
Fundado há quase três décadas pelo maestro Silvio Baccarelli, a organização social oferece anualmente aulas de balé e de música para 1.600 jovens de Heliópolis.
Construir uma sala de concerto na favela foi um desejo que surgiu há duas décadas para preencher lacunas. "Aqui não há equipamentos culturais como esse à disposição da população", afirma Ventureli.
É um problema que outras áreas de São Paulo também enfrentam. "Historicamente, esses equipamentos sempre foram excessivamente concentrados nas áreas mais nobres do centro", diz Nabil Bonduki, vereador e ex-secretário de Cultura da capital. "O teatro é uma iniciativa que vai no sentido de reduzir a desigualdade no acesso a bens culturais."
Pensando nisso, os ingressos custarão, no máximo, R$ 20 com uma cota destinada para compra na bilheteria do teatro, priorizando moradores da comunidade. É uma diferença notável em relação a espaços como o Theatro Municipal e a Sala São Paulo apesar de terem apresentações gratuitas e opções de entradas mais em conta, chegam a ter ingressos por mais de R$ 300.
Professor da Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo, José Lira diz que levar equipamentos de cultura à periferia é uma estratégia importante de inclusão social e urbana.
"Experiências anteriores de melhor distribuição desses bens mostram retornos muito convincentes", diz ele, usando como exemplo o programa Pontos de Cultura, criado durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. "Os resultados no campo da educação, do lazer e da cultura são indiscutíveis."
O Teatro Baccarelli é justamente uma forma de produzir esses resultados em Heliópolis. Para isso, houve investimentos de R$ 48 milhões, dos quais R$ 32 milhões foram captados via Lei Rouanet o principal mecanismo de incentivo à cultura do Brasil.
Esse aporte financeiro deu origem a uma sala de concerto com capacidade para reunir até cem músicos no palco e 533 pessoas na plateia.
O espaço tem as suas paredes inferiores revestidas por painéis de madeira, enquanto na parte superior há cubos brancos do mesmo material. Ainda que pareçam elementos decorativos, essas peças cumprem uma função utilitária. Elas foram instaladas para fazer o som navegar pelo ambiente com mais fluidez.
"É um espaço onde a geometria e os materiais foram pensados para que haja a melhor reprodução de música possível", diz Frank Siciliano, responsável pelo projeto. O trabalho também contou com o auxílio do arquiteto José Augusto Nepomuceno, o mesmo que desenvolveu a acústica da Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte, e da Sala São Paulo, considerada uma das melhores do mundo.
Além dos aspectos sonoros, os arquitetos se preocuparam também com os elementos visuais da construção. O objetivo era criar um espaço que tivesse uma elegância sóbria para que ele não destoasse do entorno.
"A nossa ideia era que a sala estivesse em perfeita sintonia com o espaço onde a população está inserida", afirma Sciliano, para quem projetos arquitetônicos como esse devem ser democratizados. "A arquitetura de qualidade não tem que ser restrita ao CEP das pessoas."
O arquiteto Ruy Ohtake também tinha esse ideal. Conhecido por prédios célebres na capital paulista, como os hotéis Unique e Renaissance, o profissional assinou projetos em Heliópolis após ser convidado por um líder comunitário. Algumas dessas obras, aliás, inspiraram as cadeiras multicoloridas do teatro recém-inaugurado.
Assim como o arquiteto tentou democratizar o acesso à arquitetura, o Instituto Baccarelli busca agora algo similar, mas na música clássica gênero ainda associado a classes mais abastadas. "Essa é uma visão bastante preconceituosa", diz Ventureli, o diretor-executivo do instituto.
Para ele, o problema é consequência da pouca visibilidade desse gênero em espaços culturais e meios de comunicação. "É muito difícil alguém gostar daquilo a que não tem acesso", diz o maestro. "Mas a música clássica não é da elite. Muito pelo contrário."
Professora de música da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, Yara Caznok diz que a associação desse estilo às elites tem raízes históricas.
Segundo ela, composições clássicas foram documentadas em livros e partituras ao longo dos séculos. Esse processo tornou o estilo pouco acessível às parcelas mais pobres da sociedade por dificuldades de ingressar na escola e em cursos de música.
Além disso, durante o barroco, período que vai do século 17 até meados do 18, a música erudita era usada pela Igreja Católica e por Estados absolutistas para consolidar a sua autoridade. "Quanto maior a qualidade do coro, da música e dos compositores, maior era o poder", diz Caznok, estudiosa da obra de Richard Wagner, um dos gênios da música germânica.
Impérios caíram e a igreja se transformou, mas a música clássica continua associada à ideia de poder e superioridade de uma pequena parcela da sociedade.
"Mas é direito de todas as pessoas não só ter acesso à música clássica, mas também a outros estilos musicais", diz Caznok, para quem o Teatro Baccarelli ajuda a efetivar esse direito. "Na educação, nós batalhamos o tempo todo para que o público não seja prisioneiro de um único repertório. A diversidade musical traz um mundo repleto de valores sociais, históricos e políticos."
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CORAL JOVEM DE HELIÓPOLIS E OTÁVIO PIOLA
- Quando Qui. (27), às 19h
- Onde Teatro Baccarelli - Estrada das Lágrimas, 2.317, São Paulo
- Preço R$ 20
- Classificação Livre
CARTOGRAFIAS DO INVISÍVEL POR CIA BALLET PARAISÓPOLIS
- Quando Sex. (28), às 20h
- Onde Teatro Baccarelli - Estrada das Lágrimas, 2.317, São Paulo
- Preço R$ 20
- Classificação Livre
ORQUESTRA JUVENIL HELIÓPOLIS E PAULO GALVÃO
- Quando Sáb. (29), às 20h.
- Onde Teatro Baccarelli - Estrada das Lágrimas, 2.317, São Paulo
- Preço R$ 20
- Classificação Livre