terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Variedades

Qualidades da Orquestra Municipal de SP foram ressaltadas no Colón

FolhaPress 10/12/2025 18:40

FOLHAPRESS - Ao contrário das orquestras especializadas no repertório sinfônico, é incomum que os grupos estáveis dos teatros de ópera viajem para se apresentar fora de suas cidades ou países.

Não há nada de especialmente estranho, portanto, no fato de que a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo, a OSM, criada há quase 90 anos, nunca tivesse excursionado, o que só intensifica a importância de sua estreia internacional, na última segunda-feira (8), no palco do espetacular Teatro Colón, em Buenos Aires.

Além da tradição que tem no mundo da ópera, o Colón é um fenômeno da acústica musical —comparado às melhores salas do mundo, como a Musikverein, em Viena, o Concertgebouw, em Amsterdã, ou o americano Boston Symphony Hall, o Colón é o único teatro de ópera dentre os citados. Do ponto de vista estritamente acústico, é superior ao Teatro alla Scala de Milão.

Tendo regido na Argentina recentemente como convidado, o maestro Roberto Minczuk havia sugerido que a futura apresentação da orquestra brasileira, já agendada, pudesse ter alguma obra argentina no programa, ao que os organizadores retrucaram: "Não, traga apenas música brasileira!"

E assim foi feito. Na exata semana em que os grupos estáveis de Buenos Aires —orquestra, coro e balé— completaram cem anos, o grupo brasileiro tocou Carlos Gomes, Villa-Lobos e Elodie Bouny com casa cheia —lembremos que, com 2.478 lugares, o Colón tem capacidade consideravelmente maior do que a Sala São Paulo e o Theatro Municipal paulistano. Amplamente aplaudida, a orquestra brasileira ofereceu dois bis: "Tico-tico no Fubá", em arranjo de Cliff Colnot, e "Mourão", composição de Guerra-Peixe e Clóvis Pereira.

Viajar em grupo, poder focar por mais tempo em um repertório menor e experienciar espaços acústicos de excelência faz muito bem a um organismo musical —mesmo com as peripécias comuns em viagens, a empreitada aumenta o entrosamento, refina o som e renova as energias. É comum notar um crescimento artístico quando da volta para casa.

O programa começou com a abertura sinfônica de "O Guarani", de Carlos Gomes —ópera que foi encenada pelo Municipal nas últimas temporadas—, seguindo-se duas árias da personagem Ceci interpretadas pela soprano Maria Carla Pino: "Gentile di Cuore", do primeiro ato, e "C’era una Volta un Principe", do segundo.

A adaptação a uma acústica nova e tão transparente —onde cada detalhe aparece— força ajustes finos em tempo real. Na abertura sinfônica, os violinos foram apurando a afinação, timbrando aos poucos; já, na primeira ária, levou apenas um instante para os tempos de solista e orquestra se ajustarem.

Nascida na Paraíba e formada na Suíça, Pino tem bela voz e técnica refinada. Saiu-se melhor ressaltando os afetos introspectivos e complexos de "C’Era una Volta" do que na caracterização da jovialidade espontânea da entrada-apresentação de Ceci na história.

Ela ainda voltaria, após o intervalo, para interpretar, acompanhada apenas por um ensemble de violoncelos —tal como Villa-Lobos prescreve— os dois movimentos das "Bachianas Brasileiras nº 5". Foi bom que, em um teatro típico de ópera, a OSM tenha levado também obras clássicas do repertório vocal brasileiro.

A boa surpresa da noite foi ouvir "Ignis", peça para cordas da compositora franco-brasileira Elodie Bouny, com dois breves movimentos interligados. A obra parte da gravação do canto de um pássaro da floresta, o qual se funde aos instrumentos da orquestra ao longo de toda a primeira seção. Grafado com precisão na partitura e imitado pelas cordas, esse canto solene e dolorido conduz toda a trama.

Fecharam as duas partes do programa, cada qual com os seus quatro movimentos, respectivamente as "Bachianas Brasileiras" nº 4 e nº 7 de Villa-Lobos, nas quais a Sinfônica Municipal tocou solta e inspirada. Na fuga final da "Sétima" —especialidade de Minczuk— as cordas davam vida para os virtuosísticos solos de madeiras e metais.

No fundo do palco, bem ao centro, podendo contemplar o enorme teatro lotado de frente, a atuação da timpanista Marcia Fernandes, em total concentração, era o símbolo de um grupo que, naquele momento, não tinha nenhuma insegurança, seja musical ou profissional: apenas almejava fazer música com precisão, beleza e excelência.

O crítico viajou a convite da Orquestra Sinfônica Municipal

ORQUESTRA SINFÔNICA MUNICIPAL DE SÃO PAULO EM BUENOS AIRES

- Avaliação Muito bom

- Quando Seg. (8), 20h

- Onde Teatro Colón - Cerrito 628, Buenos Aires

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