quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
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Peça 'Novas Diretrizes em Tempos de Paz' volta a São Paulo e relembra a ditadura

FolhaPress 23/11/2025 16:29

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Fernando Billi, um dos atores da versão atual de "Novas Diretrizes em Tempos de Paz", no Teatro Estúdio, em São Paulo, chama o espetáculo de uma carta de amor ao teatro.

Escrita por Bosco Brasil, a peça estreou no final de 2001 e é um dos grandes sucessos da dramaturgia brasileira, com montagens em Portugal, na Itália, na Argentina, em Porto Rico, no Uruguai, no Chile e no México, além de uma adaptação para o cinema.

A história de Clausewitz, um refugiado polonês que chega ao Brasil no dia 18 de abril de 1945, durante a ditadura de Getúlio Vargas e no final da Segunda Guerra Mundial, é contada mais uma vez a partir de um desejo de Eric Lenate, ator e diretor da encenação, que precisou ser insistente para conseguir a liberação do texto junto ao autor.

Nos anos do governo de Jair Bolsonaro, o dramaturgo preferiu evitar interpretações equivocadas em relação às nuances de Segismundo (Billi), funcionário da imigração e ex-torturador que tenta barrar a entrada do refugiado polonês do nazismo (Lenate) no Brasil.

Os anos de bolsonarismo acabaram, e Bosco concordou em ver sua fábula voltar ao palco, desta vez em formato de arena e tomado por caixas, papéis, arquivos, uma máquina de escrever e um rádio antigo —símbolos de uma repartição pública da década de 1940. Há também, como elemento sonoro, o apito ameaçador de um navio prestes a partir do porto do Rio de Janeiro.

O embate entre o polonês Clausewitz e o brasileiro Segismundo acontece em um período em que todos aguardavam as novas diretrizes para os tempos de paz e eram muitas as dúvidas sobre o futuro.

Clausewitz é um ex-ator que, no Brasil, imaginava poder contribuir com o trabalho braçal na agricultura, por não saber qual seria o espaço ocupado pelo teatro na nova era que se aproximava.

Segismundo cumpre ordens e, rígido, parece buscar um reencontro com as próprias emoções perdidas. É o teatro que estabelece o laço entre os dois homens, com a citação de passagens de "A Vida É Sonho", de Calderón de La Barca, em uma homenagem singela e tocante às artes cênicas.

Na montagem atual, o palco gira devagar, o jogo de luz se estabelece a partir dessas voltas e o público vê a cena de todos os ângulos, quase cúmplice e meio hipnotizado.

Dan Stulbach, uma das inspirações do autor, a partir das imitações que fazia do rabino e amigo Henry Sobel, interpretou o refugiado polonês nas temporadas de sucesso da peça no início dos anos 2000. Teve três companheiros de cena —Jairo Mattos, Pascoal da Conceição e, por fim, Tony Ramos, com quem também fez o filme "Tempos de Paz", de Daniel Filho, uma adaptação da peça.

Apesar das dores da guerra e da ditadura, o autor faz questão do humor em cena. Vê o refugiado como um personagem cômico que vai parar dentro de uma tragédia. Outra inspiração foi a biografia de Ziembinski, diretor polonês considerado fundamental para a modernização do teatro brasileiro e que viveu na época em que o Brasil exigia um documento de salvo-conduto para a entrada de imigrantes.

"Eu via o Ziembinski na TV, achava uma figura interessante e imaginava como ele faria para conseguir o salvo-conduto", contou Bosco em um debate pós-apresentação da peça no Teatro Estúdio.

Além disso, o autor é fascinado pelas décadas de 1940 e 1950 e escreveu "Novas Diretrizes" em plena efervescência das discussões sobre o lugar do teatro no mundo, em uma São Paulo voltada aos debates entre artistas.

A primeira montagem estreou como parte de um ciclo de dramaturgia no teatro Ágora, com Stulbach e Mattos no palco, direção de Ariela Goldmann e iluminação de Gianni Ratto.

A encenação foi criada em pouco mais de uma semana, após a leitura do texto, conquistou o público de São Paulo, depois o de outras cidades e países. Venceu, entre outros, os prêmios Shell e APCA.

Remontar o espetáculo, neste momento, remete aos refugiados das guerras atuais, à tortura e mortes que ainda marcam a segurança pública. As situações se repetem e a pergunta ainda parece válida. Qual é o lugar do teatro no mundo de futuro incerto?

NOVAS DIRETRIZES EM TEMPOS DE PAZ

- Quando Sex. e sáb., às 20h; dom., às 16h. Até 8/2

- Onde Teatro Estúdio - r. Conselheiro Nébias, 891, São Paulo

- Preço R$ 80 (inteira) no sympla.com.br

- Classificação 14 anos

- Autoria Bosco Brasil

- Elenco Fernando Billi e Eric Lenate

- Direção Eric Lenate

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