quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Variedades

'O Natal dos Silva' é boa estreia da Filmes de Plástico na televisão

FolhaPress 27/11/2025 13:41

FOLHAPRESS - Como se pode ver já pelo título, para sua primeira experiência em séries de TV, o grupo Filmes de Plástico escolheu tratar de uma família simples em "O Natal dos Silva". Simples e vasta: para este ano, três gerações encontram-se na casa onde viveu a matriarca, morta há pouco tempo e totem absoluto da família.

Às vezes é difícil entender a família Silva. Para eles, como para muitas famílias, Natal é o momento em que podem se ver pessoas há muito distantes por inúmeras razões. No caso, é o momento em que se encontram as não pequenas diferenças que existem entre eles.

O Natal, tal como representado, é a hora de brigarem, se xingarem, de humilhar uns aos outros. Mas, para nossa surpresa, eles continuam juntos. Há algum tipo de união nisso tudo. Não é apenas a memória da mãe que os une, nem apenas a casa onde ela viveu, nem a famosa mangueira do quintal.

Existe algo mais, até porque a casa todos querem vender, com exceção de Bel, papel de Rejane Farias, a irmã mais velha. E esse algo mais encontraremos nas dificuldades econômicas pelas quais todos passam.

Isso define o universo: uma família modesta, negra, num mundo hostil, que lhes oferece poucas oportunidades. A família é onde se descarregam todas as mágoas, transformadas em queixas e rancores de uns contra os outros, mas ao mesmo tempo o único lugar onde se pode encontrar um refúgio. Não são os únicos: parece que o século 21 se organiza em torno da família.

Dito isso, vamos aos fatos. A série foi criada por Gabriel Martins, que dirige dois dos cinco episódios, Maurílio Martins cuida de mais dois e o outro fica por conta de André Novais Oliveira. A direção é uniforme, o que indica todos terem abdicado de sua pessoalidade em nome do conjunto. O grupo da Filmes de Plástico não deixa de ser uma família, só que aparentemente bem menos conflitiva que os Silva.

A atual matriarca da família é, ou deveria ser, a irmã mais velha e atual dona casa, Bel. O problema é que a rejeição a Bel é quase geral, o que não espanta: seu mal-humor permanente, diga-se, é um ponto fraco da série, já que limita sua personagem a uma unidimensionalidade quase sufocante. Ela é intolerante, agressiva e boca-suja.

No entanto, os integrantes do grupo têm matizes variados, o que ajuda a formar um conjunto interessante. Há a irmã que se opõe a ela, uma outra que tenta preservar o chamado espírito de Natal, o irmão que bebeu demais, sofreu um acidente de automóvel grave e fica um tanto diminuído diante dos demais.

Na geração dos filhos, a presença central é Luciano, papel de Robert Frank, enfermeiro que chega com a possível futura noiva, Lin, papel de Aisha Brunno, e já na porta é recebido a pedradas por Bel. Os outros também são tratados a pontapés, com a única exceção de Jesinho, personagem de Italo Laureano, filho adotivo de Bel, que mora nos Estados Unidos e é o único branco da família —ao menos o único reconhecido, pois Lucimara é uma espécie de pária no grupo.

Não é um detalhe insignificante: o personagem, alvo da admiração geral, por ser ator, viver nos Estados Unidos etc., lembra que a convivência entre negros e brancos em condição de igualdade não precisa ser vista como um presente de Natal.

No mais, é preciso dizer que a tensão entre intolerância —e não apenas de Bel— e convivência é que dá o tom à série. Justamente por serem relações muito tensionadas, me pareceu uma deficiência da série a opção por não equilibrar a tensão com humor.

O tom é contínuo, mesmo quando haveria motivos para transformá-lo em situação cômica —digamos, a cena de troca de presentes parecia propícia a algo desse tipo, mas foi levada como motivo de tremendo constrangimento. Já a opção pelo melodrama no episódio final parece justa, na medida que oferece à grande terapia grupal a necessária catarse.

É preciso notar ainda a originalidade de Gabriel Martins e colegas na composição do grupo e na concepção do enredo natalino, assim como na condução da trama num espaço limitado. Embora quase tudo se passe no interior da casa, não se sente monotonia por isso. Em contrapartida, teria sido interessante usar mais a ótima fachada do imóvel.

A estreia da Filmes de Plástico no universo das minisséries é uma experiência com vários pontos positivos, mas onde também se nota a inexperiência no trato do novo formato. Por outro lado, a direção coletiva —e mesmo colaborações no roteiro— mostra o tamanho do entrosamento do grupo de Contagem, de Minas Gerais.

Por fim, não se pode deixar de notar o equilíbrio notável de um elenco com mais de 20 atores. Esse tipo de fenômeno não era frequente no cinema brasileiro e agora se mostra, ao mesmo tempo, tanto no "Natal dos Silva" como em "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho. Há não tanto tempo era difícil encontrar no Brasil atores capazes de dar conta adequadamente de pequenos papéis.

O NATAL DOS SILVA

- Avaliação Bom

- Quando Estreia nesta qui. (27) no Canal Brasil e no Globoplay

- Elenco Carlos Francisco, Rejane Faria e Carlandréia Ribeiro

- Produção Brasil, 2025

- Criação Gabriel Martins

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