WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - Aube começa sua história dizendo que tem um sorriso de quase 17 centímetros. Está sempre ali, esgarçado. Mas não é bem um sorriso, nem está no rosto. É a cicatriz desenhada no pescoço pela faca que o degolou.
A protagonista do romance "Língua Interior", de Kamel Daoud, é uma sobrevivente da guerra civil argelina, que deixou dezenas de milhares de mortos nos anos 1990. Traz na pele a lembrança de um dos episódios mais violentos da história de seu país. É o sorriso irônico de sua tristeza.
Daoud é um celebrado autor argelino. Seu livro "O Caso Meursault" recebeu, em 2015, o Prêmio Goncourt, o mais importante da língua francesa, na categoria de romance de estreia. Era a reinterpretação do clássico "O Estrangeiro", de Albert Camus, mas da perspectiva da Argélia.
Com "Língua Interior", Daoud voltou a vencer o Goncourt em 2024, agora na categoria principal. O livro sai no Brasil pela editora DBA, na tradução de Bernardo Ajzenberg, que também havia vertido "Meursault".
À Folha, Daoud conta que escolheu narrar a guerra civil, conhecida como "década negra", para que o país não a esqueça. O governo, afirma, tem tentado silenciar essa parte de sua história. "Na consciência argelina, trata-se de uma guerra vergonhosa, oculta e pouco reconhecida", afirma.
Há celebrações da Guerra de Independência contra a França nos anos 1950, um dos mitos fundacionais da nação. Enquanto isso, as autoridades impõem o que Daoud descreve como um "silêncio artificial" sobre a guerra civil dos anos 1990. Em 2005, o país aprovou a controversa anistia dos perpetradores. Sem falar do que aconteceu, no entanto, "a Argélia não pode construir uma narrativa justa e pacífica".
A guerra civil começou em 1992, após um partido islamita vencer as eleições e ser impedido de governar por um golpe militar. Os islamitas declararam uma guerra religiosa contra as autoridades, que responderam com força. O número de mortos no confronto, que se estendeu até 2002, ainda é discutido na Argélia a cifra varia entre 40 mil e 200 mil.
"Minha juventude foi arruinada e roubada, e os islamitas emergiram ideologicamente vitoriosos, mesmo que tenham perdido militarmente", diz Daoud, que estava na casa dos 20 anos quando o conflito começou.
A escolha da protagonista é simbólica. Aube, que sobreviveu à degola, perdeu a voz. É, portanto, impedida de falar sobre sua experiência. Ela narra a história em pensamentos, na tal voz interior, contando à filha, que carrega no ventre, o que aconteceu durante a década perdida do país.
É simbólico também que a narradora seja uma mulher. "São as primeiras vítimas das guerras civis", diz. "Quando o conflito termina, as mulheres que foram estupradas e sequestradas, aquelas que retornam com filhos considerados ilegítimos, continuam a pagar um preço por muito tempo."
O livro introduz alguns narradores secundários, que contam suas histórias para Aube. Um deles é Aïssa, outro sobrevivente. Sua impossibilidade narrativa é outra: não sabe escrever. Além disso, quando fala sobre aqueles anos, todos duvidam dele.
É como a Cassandra dos clássicos gregos, afirma Daoud: uma figura condenada pelos deuses a prever o futuro sem que seu povo acredite. Assim, Aube e Aïssa se complementam. "A dor precisa de uma linguagem e de um ouvinte", diz.
O livro, de mais de 450 páginas, avança aos trancos, indo e voltando no tempo. "A dor não pode ser relatada de forma linear, clara, coerente e direta", afirma. "É preciso rodeá-la, traçar círculos, fazer digressões, reconstruir a linguagem, perder-se e evitar a sinceridade brutal e crua."
Daoud diz que não escreveu para ter um impacto social no país. Essa é a função dos políticos e dos historiadores, e não dos romancistas, sugere. O livro, dito isso, tem uma mensagem bastante clara, criticando a anistia e as autoridades que, como o livro vai sugerindo, sufocaram a memória.
Também está evidente a posição de Daoud sobre alguns dos temas mais delicados da Argélia. Uma das coisas que levaram a críticas no passado foi seu uso literário do francês é, afinal, a língua do antigo colonizador. Os questionamentos o incomodam.
"É ao mesmo tempo cômico e triste" que perguntem a um escritor francês sobre sua obra e, a um argelino, por que escreve em francês em vez de árabe, afirma ele. "O francês hoje faz parte da história argelina, pago com sangue e casamentos. É um lugar de vitória, não de derrota. Por que renunciar a ele?"
Daoud também foi atacado nos últimos anos por sua representação negativa do islamismo, o nome dado ao uso político do Islã. "A Argélia está prestes a se tornar um estado islâmico", afirma o autor. "Recontar a guerra civil é transformá-la em um conto de advertência para as gerações mais jovens e também para o restante do mundo: que o islamismo mata."
Questionado sobre isso, Daoud insiste em seu direito de contar a história como quiser, ainda que isso incomode em um país de maioria muçulmana. "Os islamistas mataram dentro de mim e ao meu redor", diz. "Por que eu deveria me calar? Aqueles que denunciam a islamofobia têm mais direito de falar do que aqueles que denunciam o islamismo?"
Essas posições, afirma, levaram a ameaças de morte e a campanhas difamatórias. É assim que ele também explica a controvérsia mais recente.
Uma mulher argelina também degolada e sem voz foi a público dizer que Daoud tinha roubado sua história. Para piorar, ela afirma que foi paciente da esposa dele, uma psiquiatra, o que levou a questionamentos quanto ao sigilo profissional dela. Daoud se diz perseguido.
"Meu romance é ficção, não uma autobiografia nem a história da vida de alguém em particular. É compreensível que alguns se vejam refletidos nela, mas é absurdo atacar um romancista por causa de um romance."
LÍNGUA INTERIOR
- Preço R$ 114,90 (456 págs.)
- Autoria Kamel Daoud
- Editora DBA
- Tradução Bernardo Ajzenberg