SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos anos 1970, a artista plástica Marlene Almeida começou a pintar telas com tintas produzidas a partir de fragmentos do solo. Militante a favor da questão ambiental, ela até tentou estimular outras pessoas a trabalharem com essa técnica, mas encontrava reações pouco entusiasmadas.
"Na época, as pessoas procuravam materiais mais industriais, mais refinados, que tinham nomes diferentes. Eu não consegui convencer muita gente", diz Almeida. "Eu estava meio solitária naquele momento." Hoje, porém, o cenário é outro.
Em tempos de emergência climática, preocupações ambientais entraram na ordem do dia não apenas na política, mas também no mundo das artes. Para confirmar isso, basta olhar para as principais exposições deste ano.
No parque Ibirapuera, a Bienal de São Paulo, por exemplo, tensiona a relação muitas vezes predatória que o ser humano estabelece com a natureza. Proposta parecida pode ser vista no Masp, onde está em cartaz a exposição "Histórias da Ecologia".
O mesmo museu causou furor neste ano com uma mostra que fez uma leitura ecológica sobre a obra de Claude Monet.
"Hoje, muita gente está falando sobre isso, mas quando comecei nem existia o termo ecologia", diz a artista, que reúne parte de seu trabalho na exposição "Veios da Terra", em cartaz na galeria Flexa, na zona sul do Rio.
Com curadoria de Luisa Duarte e Daniela Avellar, a mostra leva ao público trabalhos que têm na terra a sua matéria-prima. É o caso, por exemplo, de "Aguda como Serra III", uma tela em que pigmentos minerais encontrados no solo dão origem àquilo que parece ser uma formação rochosa.
A mesma técnica foi usada em "História da Terra" uma grande pintura formada pela junção de seis telas em que se insinua uma superfície planetária. Sobre o corpo celeste, é possível ver pinceladas de tons terrosos que lembram erupções vulcânicas.
O marrom da terra, no entanto, não é a única cor presente na mostra. Ao ver os trabalhos, surpreende a diversidade cromática das telas.
Evidência disso é "Veredas V", uma pintura que combina cores como verde, laranja e bege para formar uma imagem que se assemelha aos afluentes de um rio.
"No meu ateliê, há obras com uma quantidade imensa de cores. Há muitas possibilidades de trabalhar com a terra. Aos poucos, eu fui descobrindo isso."
A aproximação de Almeida com a terra se deu ainda na infância, momento em que a artista recolhia pedras e argila para guardar em casa. Quando decidiu entrar no mundo das artes, ela começou com obras figurativas criadas por meio de ferramentas tradicionais.
Nos anos 1970, porém, passou a trabalhar de forma mais intensa com materiais naturais, prática que se acentuou na década seguinte. A partir daí, desenvolveu seu fazer artístico usando somente esses insumos.
"Eu sou uma artista muito feliz por trabalhar com a terra, que entrou na minha vida devagarzinho e, aos poucos, foi ganhando espaço." Para produzir os pigmentos, ela colhe fragmentos do solo de diferentes regiões do país.
Em vez de descartar o material que sobra após concluir os trabalhos, Almeida decidiu guardá-lo em sua casa, em João Pessoa. Esse estoque foi crescendo ao longo de cinco décadas e, hoje, forma o que a artista chama de Museu das Terras Brasileiras, um inventário com amostras de diferentes solos do país.
"Eu sou a guardiã dessa coleção, mas ela não é apenas minha. Por isso, deve ser vista por outros olhos." Foi pensando nisso que a artista decidiu apresentar uma pequena fração desse museu na Bienal de São Paulo.
Intitulada "Terra Viva", a instalação leva ao público amostras de solo armazenadas em tubos de ensaio, recipientes que dão ao ambiente um aspecto alquímico. "Essa é a minha missão. Trabalhar com essa alquimia que tem na terra a base de tudo."
A relação de Almeida com a natureza não se dá apenas em seu trabalho artístico. Em paralelo à atuação no mundo das artes, ela desenvolveu uma militância que deu origem à Associação Paraibana dos Amigos da Natureza, primeira entidade ambiental da Paraíba.
O ativismo, porém, não se confunde com seu trabalho como artista, já que ela foge de obras proselitistas. É uma postura diferente daquela que tinha no início da carreira, quando a questão política aparecia nas telas de forma quase literal.
"Mas, aos poucos, eu fui sentindo que eu não precisava fazer aquilo", diz Almeida. "Tenho observado que mostrar somente a terra pode emocionar mais as pessoas do que uma pintura panfletária."
VEIOS DA TERRA
- Quando De seg. a sex., das 10h às 19h. Sáb., 12h às 17h. Até 15 de janeiro
- Onde Galeria Flexa - Dias Ferreira, 214, Leblon
- Preço Gratuito
- Classificação Livre