FOLHAPRESS - O ponto de vista feminino é o essencial do cinema de Lynne Ramsay. Já pudemos estar em contato com Kevin, o filho indesejado, e suas repercussões sobre a mãe, em "Precisamos Falar sobre o Kevin". Em "Morra, Amor" a situação se inverte. O filho é desejado, e Grace, papel de Jennifer Lawrence, é a mãe amantíssima do filho fruto do romance com Jackson, vivido por Robert Pattinson.
O romance começa às mil maravilhas. Estamos no fundão da América, na zona rural do estado do Tennessee, na casa que Jackson ocupa, herança de seu avô. A casa está meio aos pedaços, mas com o amor que os une, comprovado até por rápidos flashes de cenas de sexo, não é nada estranho que apareça remodelada pouco depois. A situação é tão plácida, que apenas alguns sobressaltos vindos da banda de som chamam a atenção do espectador.
A estranha opção do jovem casal terá repercussão em seu futuro. Viver numa propriedade rural desse tipo supõe viver em paz e solidão eternas. À parte alguma visita familiar, Grace em especial permanecerá solitária todo o tempo. Em princípio isso poderia ser bom para sua profissão de escritora. Mas, salvo engano, ela não é capaz de escrever nem receitas de bolo ao longo do filme.
Jackson é ausente. Trabalha, sabe-se. Mas onde? Nunca aparece. Fica longe por algum tempo, de repente ressurge com cabelo desgrenhado e barba por fazer. Ele está igual todo o tempo. Sempre de mau humor. Seu problema é a mulher, é Grace. Passado o entusiasmo da lua de mel, ele não lhe dá muita bola. Ela não se conforma. Ela o deseja. Ele, bem menos. Bebe muito.
Parece uma situação corrente do matrimônio. Sim, ela poderia se divorciar, mas naquele fim de mundo não vive ninguém, então não mudaria muita coisa. Ou vive, um motoqueiro a princípio bem estranho, que depois se revelará simpático à moça e talvez até mais que isso não está excluída a hipótese de ele ser uma criação da cabeça dela.
Quanto a Jackson, parece que encontrou alguma parceira, ou algumas, e tem o desplante de deixar uma caixa de preservativos no porta-luvas. Ela a descobre, o que era inevitável. Ele tem a cara de pau de dizer que um amigo esqueceu aquilo ali.
Como o título bem explicita, o desejo de morte do parceiro se acentua junto com os problemas psíquicos que aparecem. A carga cai toda sobre os ombros da mulher. Ela é que precisa de auxílio psiquiátrico. De um psiquiatra conformista, como devem ser os do fundão do sul dos Estados Unidos. Seu objetivo, muito claro e demonstrado sinteticamente, é mostrar à moça como se conformar e se submeter ao mundo masculino. É a receita da felicidade feminina. Grace não consegue ver nisso grande futuro.
O essencial neste filme é que temos visto o casamento, com muita frequência, ser problematizado do ponto de vista masculino. Maridos que bebem para se consolar da vida doméstica, dos que se queixam de ter de trabalhar feito bois para sustentar a prole. Em suma, dos que veem na união familiar a raiz de todos os males. Podem nem ser maridos, como em "Um Bonde Chamado Desejo" ou "Uma Rua Chamada Pecado", na estranha tradução brasileira. Ali Marlon Brando faz de um ponto de honra humilhar a frágil cunhada e, por tabela, a irmã dela, sua mulher.
Já o ponto de vista feminino ainda pouco se vê no cinema. O da diretora Lynne Ramsay é, certamente, menos profundo que o de, por exemplo, Kelly Reichardt, mas tem o mérito de ser mais direto. Vai reto aonde vê problema, sem intermediários, e descarta de saída a velha ideia da dona de casa feliz, que é feliz por ser dona de casa.
Ramsey tem o mérito adicional de dirigir muito bem seus atores, em especial Jennifer Lawrence. Não que despreze, por exemplo, Robert Pattinson. É que o personagem dele é o de um coadjuvante, precisa viver à sombra do dela, ser um reflexo da personagem feminina. Presenças de Sissy Spacek e Nick Nolte, por poucos minutos, nem de longe prejudicam o conjunto, mas o filme é de Jennifer Lawrence, que ajuda a fazer de um tema difícil um espetáculo, à falta de melhor palavra, agradável.
MORRA, AMOR
- Avaliação Bom
- Quando Em cartaz nos cinemas
- Classificação 16 anos
- Elenco Jennifer Lawrence, Robert Pattinson e Sissy Spacek
- Produção Canadá, 2025
- Direção Lynne Ramsay