SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No final da década de 1950, o arquiteto e designer Jorge Zalszupin deu início a uma empreitada que transformaria o perfil do mobiliário brasileiro. À época, a arquitetura do país vivia um frenesi modernista, do qual ele próprio era um dos representantes ao lado de nomes como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa e João Batista Vilanova Artigas. A produção de móveis, porém, não havia incorporado ainda essa efervescência.
Não à toa, clientes de Zalszupin tinham dificuldade na hora de encontrar móveis que refletissem o vanguardismo dos projetos que o arquiteto havia concebido. Para suprir essa demanda, ele criou a
L Atelier, marca que revolucionou o mobiliário no Brasil ao apostar em trabalhos de estilo futurista e irreverente.
Parte dessa produção está reunida agora em uma exposição na Casa Zalszupin, residência do arquiteto por seis décadas tornada centro cultural em 2021, um ano após a sua morte. Intitulada 'LAtelier' , a mostra leva ao público alguns dos móveis mais icônicos produzidos por Zalszupin, como a poltrona Dinamarquesa, inspirada nas curvas das construções de Oscar Niemeyer e na sofisticação de designers escandinavos como Hans Wegner e Finn Juhl.
Outro exemplo é o carrinho de chá, peça que traz uma estrutura de ferro e madeira sustentada por duas grandes rodas de latão. Para conceber esse objeto, o arquiteto se inspirou nos carrinhos de bebê da Polônia, onde ele nasceu, em 1922, e morou até 1940, quando fugiu da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial.
"O mobiliário de Zalszupin carrega ludicidade", diz Marina Frúgoli, que assina a curadoria da exposição. "Ele brincava com as formas e fazia móveis de aspecto futurista, quase como se fossem parte de uma nave espacial. Além disso, ele tinha a maleabilidade de usar elementos modernistas, mas de incluir também outras referências."
Isso pode ser sentido, por exemplo, na casa que o arquiteto projetou para morar, residência localizada na zona oeste da capital paulista. O imóvel incorpora características do modernismo europeu, como a presença das linhas puras e da transparência de grandes janelas. No entanto, ele adicionou elementos que conferem certa brasilidade à construção, como um teto formado por toras de madeira e uma parede cravejada com pedras.
"Um preâmbulo desta exposição é a própria casa de Zalszupin", diz a curadora. "Nesse espaço, ele propunha um diálogo com o mobiliário, a arquitetura e as artes plásticas." Esse diálogo, aliás, se fazia presente também na L Atelier.
Os cartazes de divulgação da marca incluíam não apenas móveis, mas também obras construtivistas, movimento que primava pelo racionalismo e por produções de caráter geométrico.
Para se manter fiel ao espírito da L Atelier, a mostra reuniu obras concretas e neoconcretas de artistas como Amilcar de Castro, Luiz Sacilotto, Hércules Barsotti e Judith Lauand.
Um dos destaques são seis telas da série "Tecelares", de Lygia Pape. Nesse trabalho, a artista fez gravuras em que uniu o artificialismo da geometria às formas orgânicas dos veios da madeira. As linhas presentes no trabalho lembram os padrões encontrados nos móveis de jacarandá criados por Zalszupin.
"A escolha das obras foi feita levando em conta aspectos específicos do mobiliário da L Atelier", diz Frúgoli, a curadora. "Um desses aspectos são os veios de madeira das peças. Por isso, pensei que a gente poderia criar um diálogo entre o mobiliário e essas obras de Lygia Pape. São telas que trazem tanto organicidade quanto um pensamento racional, elementos que estão presentes também no mobiliário de Zalszupin."
Outro elemento que permeia o trabalho do designer é a inovação. Ele foi um dos responsáveis por introduzir mobiliários de plástico no Brasil, no final da década de 1960.
A sua empresa começou a trabalhar com esse material após conseguir a licença para fabricar no Brasil a cadeira Hille, do designer britânico Robin Day.
O sucesso do produto foi enorme, fazendo dele um item quase onipresente em escritórios e universidades do país. A partir daí, Zalszupin diversificou a produção, investindo em outros utensílios de plástico, como açucareiros, colheres, medidores, porta-garrafas e banheiras para crianças. São itens que se popularizaram no Brasil e fazem parte da memória afetiva de muita gente.
"Ele saiu da unicidade da madeira e de móveis para mobiliar casas modernistas e se tornou presente no imaginário popular brasileiro", diz Frúgoli.
Essa produção massificada e em larga escala encontra ressonância no quadro "L'Oréal", de Geraldo de Barros. Em um diálogo com a arte pop, o artista reproduziu a propaganda de um produto cosmético, adicionando à imagem cores berrantes para fazer um comentário irônico sobre a sociedade de consumo.
Tons vibrantes estão também nos objetos de plástico produzidos pela L Atelier. Para Frúgoli, esse aspecto vai na contramão do design contemporâneo.
"A gente tem visto cada vez mais a prevalência do cinza e de cores neutras. Mas a alta visitação que essa mostra tem tido reforça que o público gosta também de cores vivas", diz ela. "A exposição traz obras e móveis históricos, mas ainda assim ela é muito contemporânea."
L ATELIER
- Quando Até 22 de novembro. Visitação mediante agendamento
- Onde Casa Zalszupin - r. Dr. Antônio Carlos de Assunção, 138, Jardim América
- Preço Gratuito
- Link: https://www.casazalszupin.com/pt/