quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Variedades

Hong Sang-soo brilha ao reforçar suavidade com que enxerga a vida

FolhaPress 22/11/2025 16:24

FOLHAPRESS - Já se disse de Hong Sang-soo que era o Eric Rohmer coreano. É uma meia verdade. Hong faz, como Rohmer, filmes de câmara, com poucos personagens e muita conversa. Ambos também parecem não se preocupar em terem seu trabalho muito visto.

Mas as diferenças também são sensíveis. Hong trabalha quase sempre com um mesmo ator, que pode ser seu alter ego ou não, mas o acompanha em praticamente todos os filmes —Kwon Hae-hyo, que em "O que a Natureza te Conta" faz o pai da moça que, pela primeira vez, traz o namorado, um jovem poeta por nome Ha Dong-hwa.

Outra diferença importante em relação ao francês: nos filmes de Hong quase sempre as coisas se resolvem em torno de uma mesa e a poder de muita bebida. Aqui as coisas são até certo ponto um tanto diferentes. Os pais de Kim, a garota em questão, moram em uma bela casa, cercada de plantas, árvores, flores e com vista privilegiada para a natureza.

Razão de sobra para que o jovem poeta se espalhe e escreva. Mas também a mãe da garota é poeta, o que desde o início parece ser um problema: a mãe já tem certo nome, publica há anos. A poesia do rapaz não é profunda e talvez nem seja sincera. A mãe não deixa de expor essas fragilidades.

O filme se faz de conversas cordiais e passeios com muitas ofertas de novos ângulos da propriedade capazes de proporcionar novos olhares —e novas incursões poéticas— ao rapaz.

Alguma coisa dá errado na história dele: a filha parece realmente interessada no jovem, com quem já tem relacionamento sólido há algum tempo; a mãe se mostra gentil, mas um tanto esquiva, enquanto o pai se mostra conversador e empenhado em apresentar novas paisagens ao rapaz.

O problema é: será que a natureza vai inspirar de fato o rapaz? E também: será isso uma espécie de prova para verificar se ele está apto a casar com a filha ou não? Diante da natureza, parece dizer o filme, é que podemos descobrir quem somos.

A mãe sabe as fragilidades da poesia incipeinte do rapaz. Mas podemos perguntar: o que têm as suas virtudes de poeta com ser um bom marido para a filha?

Em parte a questão nos leva a outra semelhança com os filmes de Rohmer: como o francês, Hong sabe como ocultar aonde estão levando as histórias que contam e qual o destino de seus personagens. É o que torna seus filmes intrigantes —e, sobretudo no caso de Rohmer, discretamente carregados de suspense.

O fato é que aqui a natureza pode até mesmo mostrar muitas coisas, mas descobrir quem é realmente o rapaz vem de outra parte. É a irmã de Kim quem, afinal, revela que ele vem de uma família importante, embora faça pose de poeta.

Essa origem fala muito sobre ele. Fala, sobretudo, sobre o que ele desconhece: a si mesmo. Saber quem somos é o fundamento principal. Algo que atravessa o que desconhecemos de nós mesmos —ou o que fazemos questão de desconhecer.

Não por acaso, entre a casa, a paisagem, os pais e a moça sobressai um objeto misterioso —o velho automóvel azul pelo qual o rapaz demonstra grande afeição. Ele parece indicar uma ligação essencial do jovem namorado, ou talvez essa fixação sinalize que algo deve mudar em sua vida.

Não há indiscrição em dizer que o velho carro azul sofre uma pane no final. O filme nem a natureza parecem nos dar pistas mais diretas sobre o assunto, mas parece significar que algo precisa mudar na vida de Kwon.

É coisa simples: essa pane tem ligação com o fato de não assumir ser quem é, um garoto rico e mimado. Essas pequenas coisas vão surgindo que talvez expliquem as fraquezas de sua poesia. Afinal, a poesia não aceita meio-termo. Isso é o começo: Kwon mostrará melhor quem é quando sob o efeito de bebida, aí veremos se está ou não preparado para ser um bom marido.

Em Hong Sang-soo, o que nos envolve não é a surpresa final ou algo assim, mas a percepção de um suave combate com a vida que, filme após filme, vai acumulando um mundo de peças desiguais, niveladas pelo olhar de Kwon Hae-hyo, o onipresente ator, e pelas aguardentes, que cedo ou tarde embalam o conto que as imagens e conversas nos contam.

O QUE A NATUREZA TE CONTA

- Avaliação Muito bom

- Quando Em cartaz nos cinemas

- Classificação 14 anos

- Elenco Kwon Hae-hyo, Ha Seong-guk e Kang So-yi

- Produção Coreia do Sul, 2025

- Direção Hong Sang-soo

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