terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
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'Foram 40 anos de impunidade', diz uruguaia sequestrada na Operação Condor

FolhaPress 28/11/2025 11:04

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Grandes tapetes coloridos enrolados e em pé, espalhados numa sala, guardam gravações narrando momentos da vida de uma menina uruguaia. Em uma parede, um vídeo exibe imagens dela, projetadas do lado de fora dos muros da prisão de Punta de Rieles, em Montevidéu. Em outra, uma longa tela de papel alumínio tem escritos marcados, a forma como a mãe dela se comunicava ainda presa. Numa terceira, a colagem de recortes de jornais e revistas lembram uma história contada e recontada por muitas pessoas ao longo dos anos —exceto por ela.

A menina é Francesca Cassariego, hoje com 50 anos, artista plástica e professora da Faculdade de Artes da Udelar (Universidad de la República, Uruguai). Ela foi sequestrada aos três anos de idade em uma ação da Operação Condor, em Porto Alegre, em novembro de 1978.

As peças fazem parte da exposição "Ainda que não recorde", inaugurada na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) na semana em que se completam 50 anos do início do plano de repressão internacional coordenado entre as ditaduras do Cone Sul. Patrocinada pelos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria, a Operação Condor funcionou de 1975 a 1981 e envolveu formalmente os regimes da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai.

Nas palavras de Francesca, as obras de arte são o relato de uma mente sem memória, mas sem esquecimento. "É uma tentativa de reconstruir a ausência de recordações. A gente costuma chamar de recordação aquilo que vê que aconteceu. Como eu não tinha isso, era muito pequena, era como se tivesse acontecido a outra pessoa", explica ela. "Mas em algum momento precisei entrar em contato com isso. Me dei conta de como essa história me formou como pessoa, ainda que eu não recorde".

Para o irmão dela, Camilo Casariego, 54, os tapetes são uma recordação nítida como um pesadelo. Com sete anos na época do sequestro, separados da mãe e levados ao Uruguai, ele conta que as tapeçarias foram enroladas neles nas vezes em que os militares os transportavam de local. Francesca não lembra, mas o corpo dela sim —a artista ainda tem medo de cobrir a cabeça, sofre episódios de claustrofobia e tem uma voz suave, que às vezes precisa fazer força para sair.

"Não tenho recordações anteriores ao sequestro. É como se minha vida começasse por volta dos 8 anos, quando terminou a minha infância. Eu seguia sendo uma criança, mas roubaram de mim aquela felicidade e inocência infantil", conta Camilo.

Os dois foram sequestrados na capital gaúcha com a mãe, a militante Lilián Celiberti, hoje com 75. Depois de um tempo de exílio na Itália, onde nasceu Francesca, ela se separou do pai dos filhos e resolveu voltar à América do Sul para atuar nas denúncias contra a ditadura militar no Uruguai.

No Brasil já estavam outros conterrâneos ligados ao PVP (Partido pela Vitória do Povo), como ela. Universindo Díaz, outro militante, se mudou com eles então para um apartamento na rua Botafogo, no bairro Menino Deus, na capital gaúcha. Como na época, uma vizinhança que segue hoje de classe média, residencial e pacata.

A tranquilidade de meses na cidade foi interrompida num domingo de novembro quando militares abordaram Lilián na rodoviária, onde ela deveria encontrar um contato. De lá, reviraram o apartamento no térreo do bloco 3, onde a família vivia, e pegaram também as crianças. A vida deles nunca mais seria a mesma.

Na madrugada, depois de passarem por um fuzilamento simulado em Santa Teresa, na fronteira, Lilián voltou com agentes à Porto Alegre e os filhos seguiram para Montevidéu. Uma separação que duraria anos.

Camilo, deixado sozinho e responsável pela irmã, virou uma testemunha chave para identificar brasileiros envolvidos na operação e confirmar a atuação conjunta de agentes dos dois países sob a Operação Condor.

"Havia ações sistemáticas contra crianças. Nós não éramos só efeito colateral dos nossos pais e mães, mas a apropriação, o ato de entregar a outras famílias para dar outra educação, era como se nos considerassem pequenos ou futuros terroristas", avalia Francesca.

Segundo o projeto Plan Cóndor, que reúne dados sobre a operação, entre as 805 vítimas contabilizadas até hoje, 55 eram crianças e adolescentes. A maioria, 48% do total, eram do Uruguai. Francesca Lessa, pesquisadora da University College London e autora de "The Condor Trials", que lidera o projeto, diz que isso se explica porque muitos uruguaios conseguiram partir para o exílio nos países vizinhos, enquanto os regimes da Argentina e do Chile instauraram a repressão imediatamente.

O projeto considera 28 de novembro de 1975 como o dia oficial da criação da Operação Condor, data da ata assinada em uma reunião de inteligência militar em Santiago, no Chile, que institui o sistema de cooperação repressiva. Além dos chilenos, assinaram representantes de Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai. Os outros países se juntariam mais tarde.

O Brasil teve 33 vítimas, segundo o levantamento. Lessa diz que o país teve papel fundamental, apesar de não aparecer entre os signatários da ata, porque inaugurou práticas de vigilância e perseguição a cidadãos nacionais no exterior ainda no fim da década de 1960, após o AI-5 (Ato Institucional nº 5), que aprofundou a repressão do regime.

Lessa lembra, porém, que já existiam casos de colaboração pelo menos desde 1969, quando o jornalista brasileiro Jorge Miranda Jordão foi sequestrado a pedido da ditadura militar do Brasil no Uruguai. Embora em 1978 a operação tenha entrado na reta final, casos seguiram até 1981. Na América Latina, houve perseguições em 13 países —Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Costa Rica, Paraguai, Peru e Uruguai— e na Europa, em quatro: França, Espanha, Itália e Portugal. 



A pressão pública foi o que fez o caso dos uruguaios ter um final diferente de muitos outros.

Depois de uma ligação anônima na redação da revista Veja, o jornalista Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo JB Scalco flagraram o sequestro em curso ao bater no apartamento e encontrar Lilián e os agentes, cinco dias depois de ela ser separada dos filhos. Com notícias na imprensa, o caso abriu uma campanha pela libertação e retorno deles ao Brasil, com atuação do advogado Omar Ferri e do ativista Jair Krischke.

"Chegamos até aqui porque, antes que a Francesca [Cassariego] pudesse se expressar com esse trabalho, houve uma mobilização coletiva e social pela verdade", afirma Lilián. "Por isso fazemos memória e falamos sobre o que aconteceu. Não se trata de contar as torturas que cometeram, como fizeram, mas falar das formas de poder de antes e de agora".

Em dezembro de 2022, 44 anos depois do sequestro, no mesmo dia em que saiu a notícia da prisão de ex-militares uruguaios envolvidos no caso, Francesca ficou sabendo que havia sido premiada com o fundo cultural para fazer sua exposição —a mesma que está em Porto Alegre até março.

"Tarda a justiça. Isso deveria ter acontecido antes, foram mais de 40 anos de impunidade total", diz ela. "É importante que se chegue à verdade. Como damos garantias de que nunca mais aconteça? Com justiça. Se amanhã alguém quiser tentar um novo golpe de Estado, sabe que vai haver consequências."

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