RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "Compreender essa terra em que nasci tornou-se minha exigência. Eu estava nela, ela estava em mim", escreve Patrick Chamoiseau sobre sua Martinica. "Quis esquecer o que sabia dela, reencontrar, como por baixo de uma ruína, sua verdadeira carne."
Um dos grandes autores da língua francesa, que só agora começa a ser editado no Brasil, anuncia nesse trecho um tema fundamental desta edição da Flup, a Festa Literária das Periferias, que começa nesta quarta-feira na zona norte do Rio de Janeiro com Chamoiseau como um de seus principais convidados.
"À minha volta, a colonização havia conduzido os discursos. Ela havia nomeado. Havia designado. Havia explicado", anota ele, numa passagem essencial de "Escrever em País Dominado", livro em que descreve sua busca obstinada por construir sua linguagem e se construir a partir dela.
É uma obra que enfrenta os processos coloniais que ditaram a maneira como as pessoas de nações subjugadas se comunicavam e se entendiam reprimindo culturas que escapavam à branquitude em torno do Atlântico. Mas o projeto de Chamoiseau parte menos da ânsia de destruir de volta que da vontade de criar algo novo.
"Nosso problema não é derrubar uma língua dominante e pôr outra língua dominada no lugar. Mas que nossos filhos tenham desejo de imaginar em todas as línguas do mundo", afirma ele, em mensagem de áudio enviada à Folha. "O papel do escritor contemporâneo é fazer uma acumulação de imaginários."
"Não estamos mais em guerra. Não é um processo de independência linguística, de busca por um absoluto. Pelo contrário, é um processo em que a autoridade estética já acabou e, hoje, se deve mobilizar todo material linguístico possível."
É um movimento semelhante ao que faz a canadense Dionne Brand, outra convidada da Flup. Em seu novo livro "Salvamento", ela compõe uma autobiografia ou "autobibliografia" de sua história como leitora, contando como entender a si mesma passou por ressignificar os clássicos que consumia.
É um processo que conversa com o da americana Christina Sharpe, que escreveu "No Vestígio" buscando os traços da negritude que permaneciam sensíveis nas entrelinhas de textos com que tinha contato no dia a dia.
Sharpe toca em aspectos mais pessimistas, como a violência sistêmica e a longa permanência da lógica escravagista, que também aparecem nas obras da americana Michelle Alexander, autora de "A Nova Segregação", e do camaronês Achille Mbembe, de "Necropolítica" que cancelou de última hora sua participação na Flup.
Mas a discussão sobre arte e cultura negra triangulada nos vértices do Atlântico África, Europa e Américas ainda tem nomes importantes como a francesa Anne Lafont, autora de "Uma Africana no Louvre", o maliano Manthia Diawara, de "Em Busca da África", e a haitiana Yanick Lahens, vencedora do prêmio Femina por "Banho de Lua".
Isso além de um elenco brasileiro que inclui escritoras como a homenageada Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Denise Ferreira da Silva, Geni Núñez e Leda Maria Martins.
Mas Chamoiseau, que foi parceiro de Édouard Glissant, funciona como uma espécie de farol para as ideias desta Flup. O martinicano reivindica, por exemplo, um "imaginário da relação".
"Não há razão alguma para opor uma língua contra a outra. Um idioma é uma riqueza, uma vida é uma visão de mundo particular, é uma experiência humana completa que traz um conhecimento insubstituível."
Isso conversa bem com um comentário da franco-senegalesa Mame-Fatou Niang, pesquisadora que volta a comandar a curadoria da Flup.
"Estamos num momento em que as pessoas se veem com uma única identidade", diz ela. "Nós nos individualizamos demais. Mas nossos ancestrais se moviam muito, e suas vidas se criaram nas encruzilhadas. E se a resposta a essa crise do extremismo for reconhecer essa mistura, essas conexões, como uma força?"
Niang diz que um bom símbolo para esta edição da festa literária são os manguezais, plantas que espalham, por baixo da água, raízes que se embrenham, se chocam, se confundem umas com as outras. "Mas é uma planta viva, funcional. Ajuda a lembrar que nunca estamos isolados, mas vivemos sempre em relação a alguma outra coisa, seja uma relação suave ou complicada."
Não é coincidência que mangue em inglês seja "mangrove", palavra que batizou o primeiro episódio da antologia "Small Axe", a obra mais pessoal do cineasta britânico Steve McQueen, outro convidado célebre do evento carioca.
A série de cinco episódios da BBC foi a primeira vez que McQueen, vencedor do Oscar por "12 Anos de Escravidão", se deteve com paixão sobre a cultura afro-caribenha que permeava a Inglaterra de sua juventude. E essa cultura "está no DNA" do que é ser britânico, segundo ele, mesmo que tentem dizer o contrário.
"Sempre foi assim. Veja só a música. As pessoas falam do rock and roll dos Beatles, dos Stones, de Eric Clapton, tudo isso é herança negra. Ela está dentro dos clubes de todo o Reino Unido, significando desde sempre o que é ser jovem, descolado."
Niang, a curadora da Flup, diz que ainda se surpreende ao encontrar conexões musicais que tornam países distantes Brasil, Jamaica, Senegal tão reconhecíveis uns dos outros. "É uma sensação de continuidade que faz parecer que algo fundamental permanece sempre vivo."
A identificação se estende também a pessoas como Conceição Evaristo, que estará presente em todos os nove dias de programação da Flup no Viaduto de Madureira, no Rio.
Conceição, diz Niang, é símbolo da tenacidade, da resiliência da cultura africana sua obra ficou escondida do grande público até passados seus 70 anos de idade. "E ela também se parece com minhas tias", brinca a senegalesa.
É o tipo de trajetória ascendente que faz orgulho a autores como Chamoiseau, sempre em busca das culturas deixadas de lado pelo rolo-compressor do cânone. E, assim, os participantes da Flup vão rimando uns com os outros.
"Temos que entender que somos feitos de diversidade, da escrita e da oralidade", aponta ele. "É preciso valorizar tudo isso igualmente. Essas fontes todas viram recursos. São coisas que devemos guardar na bolsa para continuar o nosso caminho."
FESTA LITERÁRIA DAS PERIFERIAS (FLUP)
- Quando De 19 a 23 e de 27 a 30 de novembro, a partir das 14h
- Onde Viaduto de Madureira, no Rio de Janeiro
- Preço Grátis