quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
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Em 'Salvamento', Dionne Brand pensa a vida que é destruída pelos livros

FolhaPress 19/11/2025 17:06

FOLHAPRESS - O livro mais recente de Dionne Brand, "Salvamento: Leituras do Naufrágio", com tradução de Floresta, propõe uma autobiografia marcada pelo processo de leitura. Isso permite compreender como certos textos reproduzem o mundo colonial enquanto outros abrem brechas para subjetividades plurais e insurgentes.

A partir dessa chave, a autora relê romances do cânone britânico, de Daniel Defoe e Jane Austen às irmãs Emily, Anne e Charlotte Brontë, em busca dos rastros e silenciamentos produzidos pelo colonialismo, e pensa como autoras e autores negros insuflam vida no interior desse mundo em colapso ao contar histórias que antes não podiam emergir.

Dionne Brand é poeta, romancista e ensaísta. Nascida em Trinidad e Tobago e radicada no Canadá desde os anos 1970, teve sua obra introduzida no Brasil com "Um Mapa para a Porta do não Retorno", traduzido por Jess Oliveira e Floresta para a editora A Bolha.

O título aponta para um lugar imaginário e histórico que atravessa a experiência negra em diáspora. Em 2023, Brand esteve na Flip para o lançamento de "Pão Tirado de Pedra" e "Nenhuma Língua É Neutra", da Bazar do Tempo, obras que revelam uma escrita de fronteira, onde memória, ancestralidade e linguagem poética borram os limites dos gêneros literários.

Brand retorna ao Brasil neste mês para a Flup, no Rio de Janeiro, e aproxima sua crítica da produção literária contemporânea brasileira.

Seja no romance "Meridiana", de Eliana Alves Cruz, que acompanha a ascensão social de uma família negra, seja na ideia de escrevivência de Conceição Evaristo, em que mulheres negras narram a si próprias em toda sua complexidade, é possível reconhecer caminhos que dialogam com sua obra. Essas conexões evidenciam a literatura tanto como ferramenta de recusa e imaginação radical.

A autora não defende que os clássicos da tradição branca deixem de ser lidos. Seu convite é outro: exercitar uma leitura crítica, capaz de reconhecer "as palavras e seus contextos mais amplos". Para ela, existe uma pedagogia colonial que molda o modo como aprendemos a ler e a deixar de notar aquilo e aqueles que estão ausentes.

Ao longo do livro, a autora demonstra como essa ausência opera literariamente. Em sua leitura de "Jane Eyre", de Charlotte Brontë, o romance deixa de ser apenas a história de uma mulher enfrentando zonas de submissão para revelar a ocultação do evento colonial, reduzido apenas a uma menção tardia.

Brand chama atenção para o fato de que o estilo de vida retratado como moralmente edificante é sustentado pelos excedentes da plantation, onde a violência é vivida como bem-estar pelas personagens brancas. O ambiente de Thornfield Hall, escreve ela, é animado por essa violência sublimada.

A força de "Salvamento" está justamente em pensar a vida que é destruída pelos livros e a complexa equação entre ficção, poder e memória. Para a autora, o naufrágio está na própria biblioteca, e o salvamento é a vida que resiste a ela.

Assim, mesmo passagens aparentemente desvinculadas da violência colonial revelam, em sua leitura, um reconhecimento quase inconsciente desse sistema.

Embora seus romances ainda não estejam traduzidos no Brasil, é possível relacioná-los à proposta de Brand. Em "At the Full and Change of the Moon", por exemplo, ela recusa a linearidade histórica ao narrar seis gerações de uma família da diáspora, começando com Marie Ursule, que planeja um suicídio coletivo como forma extrema de resistência. Sua filha, Bola, ao sobreviver, inaugura uma linhagem marcada pela reinvenção diante da devastação colonial.

O que Brand nos oferece, em sua crítica e em sua ficção, é uma compreensão rigorosa da maneira como a existência negra foi fundamental para a consolidação do capital e do poder branco e de como narrar essas vidas permanece uma tarefa urgente.

Sua obra nos convoca a uma prática de leitura e escrita capaz de recuperar essas histórias e insuflar vida ao que a sociedade insistiu em deixar submerso.

SALVAMENTO: LEITURAS DO NAUFRÁGIO

- Avaliação Muito bom

- Preço R$ 79,90 (248 págs.); R$ 34,90 (ebook)

- Autoria Dionne Brand

- Editora Companhia das Letras

- Tradução Floresta

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