segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
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Conheça Thiago de Souza, precursor do necroturismo em SP: 'Cemitério é sala de aula'

FolhaPress 14/12/2025 16:51

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Thiago de Souza, 46, circula entre mundos que parecem distantes. Advogado por profissão, roteirista e compositor de sambas de enredo por paixão, ele também está à frente do projeto OQTA (O Que Te Assombra), que nasceu em Campinas em 2021 e acabou migrando para a capital pouco depois.

Criador de roteiros pelos cemitérios da Consolação, do Araçá e da Vila Formosa, ele costuma conduzir grupos que somam até 200 pessoas por mês. As visitas incluem explicações sobre esculturas, personagens enterrados, curiosidades arquitetônicas e histórias de famílias que moldaram a cidade.

Os passeios guiados são gratuitos e voluntários, financiadas por leis de incentivo. O projeto também se sustenta por meio de contratos com instituições culturais, palestras, monetização no YouTube e no TikTok e a venda do "kit assombro", que contém livros e camisetas.

Thiago diz que o impacto emocional dos roteiros sempre o surpreende. Pessoas reencontram histórias familiares, reconhecem nomes em lápides e criam conexões afetivas com a cidade. "O OQTA cria duas pontes: entre pessoas e pessoas, e entre pessoas e o lugar onde vivem", resume. Ele defende que encarar essas memórias --muitas vezes apagadas-- também é um ato de política pública.

O nome do projeto veio de uma provocação que hoje parece central: o que assombra mais --o fantasma ou o trauma que o criou? Com o tempo, o sentido se ampliou para outro incômodo: a assombração causada pela falta de memória, pelo descarte do passado e pela facilidade com que cidades esquecem suas próprias histórias.

Ao longo dos anos, Thiago desenvolveu uma sensibilidade particular para o ambiente dos cemitérios. Na entrevista, ele conta, com cautela, experiências dif íceis de explicar. "Eu acredito em vida após a morte", afirma. "Não é sobre medo. Eu já senti coisas que você não vê, mas sente." Ainda assim, reforça que o OQTA não é projeto místico; é projeto humano.

NASCIMENTO E MORTE

O OQTA surgiu de uma confluência de perdas familiares e de um interesse antigo por temas ligados ao fim da vida. Em 2018, quando a sogra morreu de câncer, Thiago se aproximou dos protocolos de cuidados paliativos e se impressionou com o cuidado emocional que envolve esse processo.

Mas foi a segunda onda da Covid-19 que mudou tudo. A morte de sua tia, de forma trágica e inesperada, duas semanas antes de tomar a vacina, virou estopim. "Ali eu entendi que precisava falar de dor, trauma e memória de outro jeito."

A leitura de "Assombrações do Recife Velho", de Gilberto Freyre, completou o quadro. A partir dali, Thiago percebeu que as histórias sobrenaturais não são apenas folclore, mas sintomas sociais. Ele adotou o mesmo olhar: fantasma não é o foco; o foco é o que causa o fantasma.

"O objetivo nunca foi provar se algo existe ou não. É entender por que as pessoas contam essas histórias e o que elas revelam sobre uma cidade", explica. O OQTA passou a conectar assombrações com eventos reais --violências, apagamentos, traumas coletivos e momentos históricos. As narrativas, antes vistas como lenda urbana, ganharam corpo como diagnóstico social. "Fantasma só assombra se fizer sentido para a realidade de quem conta."

No começo, Thiago não queria ser só "mais um cara contando histórias". Resolveu, então, levar as pessoas aos lugares onde tudo havia acontecido. A ideia de circular fisicamente por cemitérios e espaços marcados por memórias se tornou a alma do projeto. E foi ali que uma porta se abriu.

Ele se encantou pela arquitetura, pelo valor estético, pelo silêncio carregado de biografias e pela dimensão emocional desses espaços. "Lápides são guardiões de memória. Um museu a céu aberto", afirma. "É uma grande sala de aula."

Para o futuro, ele planeja ampliar o estudo dos cemitérios, lançar novos roteiros e transformar parte do trabalho em livro e documentário. Quer registrar, antes que sejam apagadas, as histórias que encontrou entre os túmulos. "Tudo some muito rápido. Se você não conta, desaparece."

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