RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Por mais de 60 anos, a bailarina e coreógrafa Dalal Achcar guardou uma partitura inédita de uma trilha sonora que o amigo Tom Jobim havia composto para ela. Neste mês, a peça finalmente viu a luz do dia como trilha do balé "Água de Meninos", que estreou no Rio de Janeiro.
A trilha é fruto da amizade entre os dois artistas, que se conheceram por serem frequentadores do bairro de Ipanema na juventude. Achcar, que completa 89 anos em maio, montou uma obra metalinguística o primeiro ato do balé mostra as circunstâncias que a levaram a pedir a partitura para Jobim; o segundo, a ideia original da peça, um balé sobre a feira portuária Água de Meninos, em Salvador.
Entre tantos outros ambientes soteropolitanos, a feira ilustrou romances de Jorge Amado foi onde Antônio Balduíno, de "Jubiabá", de 1935, usou de seu charme para comprar um sapato novo pelo qual se encantou, e onde os personagens de "Capitães da Areia", de 1937, fizeram todo tipo de traquinagem.
O ponto turístico de Salvador também encantou Achcar, que esteve na capital baiana durante a década de 1950. "Eu chamo o balé de uma 'fantasia poética', uma lembrança que eu tenho dos anos que trabalhei em Salvador", disse a coreógrafa à Folha de S.Paulo alguns dias após a estreia da peça, no teatro da Cidade das Artes.
Achcar estreou como bailarina em 1956 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1960, fundou a Associação de Ballet do Rio de Janeiro, uma entidade sem fins lucrativos que passou a funcionar no bairro da Gávea. A poucos quilômetros dali ficava o Bar Veloso hoje rebatizado de Garota de Ipanema, por ter sido o local onde Jobim escreveu sua mais famosa canção. Em "Água de Meninos", o bar é representado por uma mesa da qual Jobim e Vinícius de Moraes assistem ao movimento na praia de Ipanema.
"O Tom vinha muito no meu balé. Vinha ele e o Vinícius, usavam o piano. Um dia, tomei coragem e perguntei se o Tom não queria fazer um balé pra mim", fala Dalal. "Era uma época muito rica do começo da bossa nova, da seleção ganhando no futebol. O Brasil estava despontando pelo mundo."
A partitura foi prontamente feita, mas Achcar nunca conseguiu financiamento para gravá-la. Isso mudou em 2025, quando a coreógrafa, através da Lei Rouanet, conseguiu patrocinadores e o dinheiro para registrar as orquestrações do maestro Radamés Gnattali com a participação de 26 músicos. A regência foi feita pelo sobrinho de Radamés, Roberto Gnattali.
No balé, esse intervalo de 60 anos entre a confecção da partitura e seu ressurgimento é representado por uma longa cena no final do primeiro ato, em que Jobim, interpretado por Manoel Francisco, sonha com Yemanjá, que leva o envelope onde está a partitura para o fundo do mar. Ao acordar e conseguir recuperá-la, o músico entrega o envelope nas mãos de Achcar, interpretada pela bailarina e coreógrafa Claudia Mota.
No segundo ato, dedicado completamente à feira de Água de Meninos, a trilha tão aguardada de Tom Jobim dá as caras. Entre os trechos inéditos, estão canções já conhecidas do compositor e seus contemporâneos: "Água de Beber" e "Eu Sei que Vou Te Amar" são costuradas com "Você Já Foi à Bahia?" e "Bim Bom", dos baianos Dorival Caymmi e João Gilberto.
"O balé é um misto de clássico e contemporâneo, que conta até com movimentos folclóricos", afirma Achcar, que montou a coreografia em parceria com o maître de sua companhia de balé, o belga Éric Frédéric. "É um retrato do Brasil e da Bahia, um estado de onde vieram muitos artistas importantes para a cultura brasileira."
No balé, a feira Água de Meninos é representada por meio dos olhos de dois casais de turistas, que admiram e imitam as danças das baianas, suas saias rodadas, e os passos dos capoeiristas. É uma visão idílica e nostálgica do mercado popular da Cidade Baixa de Salvador, que foi alvo de disputas sobre a legitimidade de sua existência entre a sociedade baiana e os oligarcas do estado. A feira foi destruída em 1964, num incêndio que durou 48 horas, devastou mais de 800 barracas e ceifou seis vidas. Suas circunstâncias nunca foram completamente explicadas.
A primeira temporada do balé "Água de Meninos" se encerrou no último domingo (7), mas Achcar estima que a obra será apresentada de novo. Entre os planos está levar o balé para São Paulo e outras capitais brasileiras e europeias. "Desde a época em que 'Água de Meninos' foi concebida, a música e o futebol são marcas do Brasil pelo mundo", diz a coreógrafa. "Quero que a dança também seja."