BELÉM, PA (FOLHAPRESS) - "Ele me confidenciou que o momento mais marcante dele no Brasil foi o encontro com o cacique Raoni e o presidente Lula dentro da floresta [no ano passado, na Ilha do Combu, em Belém]", conta à Folha, por telefone, o comediante francês Paul Cabannes, que mora no Brasil há 10 anos, sobre o presidente francês Emmanuel Macron, a quem acompanhou durante sua última visita ao país.
O mandatário foi a Salvador (BA), no último dia 5, onde participou de eventos da temporada França-Brasil 2025, e veio a Belém no dia seguinte, para a Cúpula dos Líderes, antes de partir para o México.
Cabannes é um parisiense que adotou o Brasil, onde ficou famoso com seus shows de stand up comedy e vídeos nas redes sociais, nos quais mostra sua visão divertida e espirituosa sobre o país.
O convite para acompanhar Macron nas capitais baiana e paraense surgiu da assessoria do presidente francês. "Esta foi a quarta vez que eu o encontrei", diz o comediante, que atribui o convite ao sucesso e à visibilidade que tem nas redes sociais.
Em março do ano passado, ele participou de um almoço com o presidente francês em Brasília. Já em novembro, encontrou Macron durante a reunião do G20 no Rio de Janeiro, quando gravou um vídeo de três minutos com ele. Já em junho deste ano, participou do jantar organizado por Macron para o presidente Lula, na capital francesa.
"Quando eu era garçom em Paris, morava próximo ao Palácio do Eliseu [sede do governo francês] e, muitas vezes, passava em frente. Eu ficava muito fascinado pela possibilidade de ver de longe o presidente", lembra. "Então a ideia de, 15 anos depois, poder conhecer o Macron pessoalmente é muito simbólico para mim."
Cabannes acha que o presidente francês "gosta genuinamente" de vir ao Brasil. "Um conselheiro dele me falou que é o país em que ele é mais amado no mundo, onde é recebido mais calorosamente. Então acho que, para ele, é muito agradável."
O comediante conta que, quando Macron chegou ao bairro histórico do Pelourinho, em Salvador, "havia 2 mil ou 3 mil pessoas". "O povo brasileiro demonstra muita afeição por ele. Tiram fotos, selfies, abraçam, gritam, tentam falar algo em francês. É algo muito forte."
E, segundo ele, a recíproca é verdadeira. "Momentos como esse, em que ele se joga na multidão, ainda mais no Brasil, não têm preço. Acho que são um alívio para ele na difícil rotina presidencial, então ele gosta muito. Eu achava que era um momento de cansaço para ele, mas agora acho que é o contrário."
O comediante revela que Macron gosta de usar as poucas palavras que aprendeu em português: "obrigado", "tudo bem" e "bom dia". E ensinou para ele uma expressão que o deixou intrigado: "Sair à francesa".
"Ele perguntou a origem, mas eu não sabia. Eu disse que, provavelmente, em algum momento, existiu um francês que saiu à francesa de muitos encontros e estragou a fama de todos nós", brincou Cabannes, que teve que interromper por um instante a entrevista com a Folha, na lanchonete de onde falava, para tirar foto com um fã que o reconheceu.
"Eu acho muito carinhoso as pessoas me reconhecerem na rua e pedirem para tirar foto. E gosto quando isso acontece na frente de franceses, como na comitiva presidencial. Porque, na França, eu sou completamente desconhecido. As matérias sobre mim que saem lá são sempre um humorista francês desconhecido na França faz sucesso no Brasil", comenta.
TIO DO BOTECO EM BELÉM
Quando chegou a Belém, no último 6, o primeiro compromisso de Macron foi na Universidade Federal do Pará (UFPA), para se encontrar com cientistas e jovens lideranças climáticas no barco da caravana Iaraçu, que viajou de Manaus (AM) a Belém.
"Ele foi interpelado por um homem que falou: Macron, e a Amazônia?. Ele respondeu que a França se comprometeu a não explorar petróleo, nem na Amazônia brasileira nem na Guiana Francesa", conta Cabannes.
Segundo ele, o homem começou a falar como "um cara falaria no boteco": Ele disse fica com Deus, falou em francês Dieu te protège (Deus te proteja), abraçando o Macron, pegando no rosto. Foi engraçado porque eu tive a sensação de ver um tio de boteco, muito caloroso e informal, junto com a figura de maior formalidade do meu país, então foi um contraste muito bom. O cara estava de camiseta e boné, e o Macron estava de terno."
Na ocasião, o presidente francês foi recebido pelo reitor da UFPA, Gilmar Pereira, e pela ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação brasileira, Luciana Santos.
Cabannes conta que, em Belém, não teve muito contato com Macron, já que não tinha credencial de acesso à Cúpula dos Líderes. Já em Salvador, esteve o tempo todo com o presidente, que participou dos eventos da temporada França-Brasil 2025 em conexão com a África.
"Ele ficou fascinado com a Casa do Benin [museu desse país africano no Pelourinho]. Ele achou muito bonita, muito emocionante também", conta. "Para um francês, há uma questão que remete ao nosso passado colonial, é algo que mistura vários sentimentos, e há também a reparação histórica. Então tudo isso envolve vários conceitos que são fortes."
CHAMADA DE VÍDEO COM RONALDO
O comediante revela que Macron gosta muito de futebol. "Ele é torcedor do Olympique de Marseille [clube de Marselha, no sul da França] e também acompanha o futebol brasileiro. Ele me contou que é amigo do Paulo César {ex-jogador brasileiro, que atuou na Copa do Mundo de 1974], que já jantou com ele. Gosta muito dele, tem uma camisa dele."
No avião presidencial, no voo entre Belém e Cidade do México, na noite do dia 6, Cabannes fez uma brincadeira com Macron, pedindo para o presidente dizer se as informações que diria sobre o Brasil eram verdadeiras ou falsas.
Ele disse que Ronaldo teria afirmado, em 2017, que, se tivesse jogado na França, gostaria de ter jogado no Olympique de Marseille. Macron respondeu: "Não só é verdadeiro, como é óbvio, como todo grande jogador". Quando Cabannes disse que a informação era falsa, o presidente conclamou Ronaldo, olhando para a câmera, a esclarecer a informação.
Há cinco dias, o comediante se encontrou com Ronaldo, por conta da publicação desse vídeo no Instagram, e os dois realizaram uma videochamada para Macron, que conversou em inglês com o jogador: "Houve uma fake news, espalhada pelo senhor Cabannes". Ao que o brasileiro respondeu, em francês: "Je suis désolée (sinto muito)". E continuou em inglês: "Eu respeito o Olympique de Marseille, mas prefiro o Paris Saint-Germain". Macron soltou um sonoro "ah, não" e disse que reconhecia a sua derrota.
PRESIDENTE BEM-HUMORADO
Para Cabannes, Macron é bem-humorado e tem senso de humor. "Ele mistura um pouco a postura presidencial e o protocolo com uma certa intimidade e familiaridade. Isso faz dele uma figura interessante."
Os três dias na comitiva serviram, segundo ele, para desmistificar a figura do presidente. "Tirando os momentos que ele está em reunião ou dormindo, você está com ele, você tem acesso completo. Ele se torna uma figura que parece acessível, e isso é fascinante. Você começa a ver o ser humano por trás da figura presidencial, e você o desmistifica. É uma coisa que eu achei muito marcante e que é até um pouco perigosa. Porque, se você não tomar cuidado, você exagera um pouco na familiaridade."
Mas o que realmente chamou a atenção do comediante é quão pouco o presidente dorme: "Eu estava aliviado no final dos três dias, porque ele dorme muito pouco, coisa de 3 ou 4 horas, eu acredito. A agenda dele tem um ritmo absurdo, de chegar ao hotel às 2h da madrugada e ter que sair às 8h".
Antes de finalizar a entrevista, o comediante lembra de mais um momento marcante com o presidente. "Ele me perguntou sobre a minha carreira. Eu expliquei que eu fui embora da França porque eu me sentia um patinho feio no meio dos meus irmãos, que estudaram muito. Eu não estudei muito, fazia bicos em Paris. Aí, finalmente, a coisa deu certo".
E completa: "Contei uma piadinha para ele, que o meu irmão é diplomata, mas nunca encontrou o presidente. Fui eu que o encontrei várias vezes. Ele achou engraçado".