RIO DE JANEIRO, RJ (UOL/FOLHAPRESS) - Das voltas que o mundo da bola dá, Bap já esteve em Lima comemorando uma Libertadores do Flamengo e, no mesmo ano, o título do Brasileirão. Mas as conquistas de 2019 não tinham a assinatura dele como presidente do clube -apenas como membro do conselho do futebol.
Agora, no primeiro ano da própria gestão, o dirigente se vê muito perto desses dois troféus e pode repetir o que aconteceu com o antecessor e ex-aliado, Rodolfo Landim.
O fato de Bap poder repetir esse aspecto da administração anterior logo de imediato aponta para um conceito específico nas rupturas de poder no Flamengo na última década.
Por mais que haja mudança de gestão, a linha vencedora tem como raiz a chapa azul original, que mergulhou forte na reestruturação financeira. As taças vieram de forma efetiva a partir de 2019. Embora os presidentes tenham mudado, a competitividade do Flamengo se renova.
Mas o título no início de um mandato não é garantia de sucesso político futuro. A chegada de Bap ao poder se dá porque Landim não conseguiu fazer um sucessor -o candidato era Rodrigo Dunshee de Abranches. E o campo tem muito a ver com isso.
"A gente tem um ditado lá no Flamengo que diz o seguinte: 'Quando a bola entra, a gestão é sempre boa'. Politicamente é sempre muito bom que a bola entre. E é muito ruim quando a bola não entra. O sócio do Flamengo é muito exigente. Ganhou um ano, fica todo mundo muito feliz. Mas no ano seguinte, já está todo mundo cobrando de novo. Não dá para sentar em cima de êxito. Politicamente, é bom ganhar. A expectativa em relação ao Flamengo é muito alta. O sarrafo está lá em cima, as pessoas não vão se contentar. Foi assim que a gente não conseguiu fazer o sucessor", afirmou Dunshee.
Antes de 2025, o Flamengo não chegava à final da Libertadores desde 2022. O Brasileirão, colocado como prioridade da gestão atual, foi vencido pela última vez em 2020.
Bap veio com um discurso forte de profissionalização no departamento de futebol, que se personificou na figura de José Boto. Para a função de técnico, continuou com Filipe Luís, a solução emergencial da gestão Landim/Marcos Braz para ganhar a Copa do Brasil após a decepção com Tite.
Ainda em outubro, quando o time estava oscilando, o presidente deu uma prévia de como estava vendo o desenrolar da temporada.
"Eu estou em contato com eles (departamento de futebol) todos os dias. Estou muito satisfeito com o trabalho feito ao longo do ano. Tem que ser uma metamorfose ambulante. Tem que ir fazendo ajustes para que alcance os seus objetivos. Só depende da gente. Vamos focar nosso esforço em fazer melhor".
O impacto de uma eventual dobradinha de títulos, talvez, não seja tanto de alívio porque não há jejum de 38 anos na Libertadores. E mais uma diferença: fora de campo, o clube e sua diretoria não têm que lidar com a responsabilidade, o luto recente e a tragédia que foi o incêndio no Ninho do Urubu naquele fatídico 2019.
"Se o Flamengo ganhar, apruma muito a gestão. Vai fluir nos próximos dois anos. Seria imbatível para reeleição, na minha opinião. Ele está fazendo um bom trabalho", disse Mauricio Gomes de Mattos, outro candidato derrotado por Bap na eleição.
RELAÇÕES TENSAS
Relações tensas
Mesmo entre figuras da política do Fla, Bap não é visto como o rei da simpatia. E isso por vezes gera impacto na forma com a qual é visto internamente e também no trato com os demais dirigentes.
A relação com o Palmeiras e a Libra é o caso mais explícito. Ainda que isso signifique o fim do bloco comercial e uma dificuldade futura para debater a organização conjunta do Brasileirão.
O contrato de direitos de transmissão assinado por Landim, inclusive, é um dos alvos de críticas por parte de Bap -o Fla calcula uma perda estimada de R$ 100 milhões em relação a 2024.
Mas o lado rubro-negro não está nem aí em ser chamado de "terraflanista", como fez Leila Pereira.
Na CBF, Bap, assim como a maioria dos clubes da Série A, não apoiou a eleição de Samir Xaud. Depois, fez crítica ao ajuste de calendário, em razão da inversão de datas da Copa do Brasil com o Brasileirão. Também houve pressão na arbitragem, numa tentativa de equilibrar o que enxergava no lado palmeirense.
De todo modo, além do sucesso no futebol, a força do mandato de Bap está no desempenho em outras áreas técnicas do clube. As finanças são um exemplo.
No primeiro ano de Landim, a conquista da Libertadores em 2019 já deixou o clube muito perto da marca do bilhão em termos de receitas -o Fla bateu R$ 950 milhões.
Em 2025, ganhar a Libertadores e o Brasileiro pode significar R$ 2 bilhões de arrecadação, até porque foi ano de Mundial de Clubes.
A projeção atual já é faturar na casa de R$ 1,85 bilhão na temporada, aproveitando o crescimento também em estádio, patrocínios e outras propriedades comerciais.
"Isso é o reflexo do trabalho que foi feito, mais de 2019 para cá. É uma consequência de um trabalho que foi feito, do qual o próprio presidente atual participou. A gente se dividiu, mas não deixa de ser uma sequência. O Flamengo é uma grande força do Brasil. Acho que não tem como o Flamengo deixar de disputar os títulos nos próximos anos", completou Dunshee.