SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em mais um episódio de tensão diplomática entre um país da Otan, a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, e a Rússia, o governo da Alemanha convocou nesta sexta-feira (12) o embaixador russo em Berlim após identificar um aumento significativo de "atividades híbridas ameaçadoras" que teriam sido conduzidas por Moscou.
Segundo um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores alemão, os casos incluem campanhas de desinformação, espionagem, ataques cibernéticos e tentativas de sabotagem.
Martin Giese, o porta-voz, atribuiu à Rússia duas operações digitais que teriam representado ameaças à Alemanha. Segundo ele, um ataque cibernético contra a segurança aérea de seu país, registrado em agosto de 2024, foi conduzido pelo grupo russo APT28, uma organização de ciberespionagem.
Giese ainda acusou Moscou de tentar influenciar e desestabilizar as eleições gerais alemãs que ocorreram em fevereiro. O pleito confirmou a vitória do primeiro-ministro conservador Friedrich Merz, da direita moderada, assim como a ascensão no Parlamento da AfD, o partido de extrema direita.
"Chamamos o embaixador russo ao Ministério das Relações Exteriores e deixamos claro que estamos monitorando muito de perto as ações da Rússia e que tomaremos medidas contra elas", afirmou Giese. O governo alemão não detalhou quais ações poderá adotar, mas disse que vê o caso com preocupação.
Na diplomacia, a convocação do embaixador ao Ministério de Relações Exteriores é uma forma de demonstrar descontentamento com temas da relação bilateral.
As acusações surgem em um contexto de crescente inquietação na Europa com a atuação de supostos hackers e espiões russos desde o início da Guerra da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Procurada pela agência de notícias Reuters, a embaixada russa não se pronunciou. Em outras ocasiões, entretanto, o Kremlin já disse que acusações do tipo são "totalmente infundadas".
O governo alemão já havia acusado Moscou de conduzir atividades de ciberataques e outras ações de sabotagens. Nos últimos meses, o avistamento de drones misteriosos fez Berlim discutir inclusive mudanças na Constituição.
O sobrevôo dos drones, atribuídos aos russos, repetiram o roteiro vivido por Polônia, Noruega e Dinamarca nos últimos meses, com caças acionados para derrubar artefatos, aeroportos temporariamente fechados, unidades militares expostas e uma certa dose de provocação. Com efeito, Copenhague prepara a viabilidade de um muro antidrones nas fronteiras com a Rússia.
Paralelamente ao aumento das tensões, autoridades diplomáticas europeias afirmaram que a Alemanha vê como indispensável a aprovação de um empréstimo de reparações para a Ucrânia baseado no uso de ativos russos congelados. O tema deverá ser discutido na próxima cúpula da União Europeia.
Segundo pessoas com conhecimento do assunto mencionadas pela agência Reuters, Berlim se comprometeria com 50 bilhões em garantias, dentro de um pacote total estimado em 210 bilhões. A Alemanha também apoia a utilização de ativos russos congelados em outros países europeus para financiar o mecanismo.
As mesmas autoridades alertaram que a falta de acordo na cúpula enviaria "um sinal desastroso para a Ucrânia" e representaria "um fracasso da própria Europa".