quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
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'A Queda do Céu', exibido em Cannes, mostra experiência yanomami radical

FolhaPress 21/11/2025 12:50

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um livro relevante costuma demorar décadas, às vezes séculos, para ser amplamente aceito como um clássico. Mas existem exceções e provavelmente "A Queda do Céu" é uma delas. A obra assinada pelo xamã yanomami Davi Kopenawa e pelo antropólogo francês Bruce Albert foi lançada originalmente em 2010 na França e cinco anos depois no Brasil.

O livro se apresenta inicialmente como testemunho autobiográfico de Kopenawa, mas dá passos muito além disso. Fruto da convivência de mais de três décadas do líder indígena com Albert, é ainda uma denúncia da destruição da floresta amazônica e um manifesto dos saberes xamânicos.

"‘A Queda do Céu’ é um acontecimento científico incontestável", escreveu o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, reconhecido por seus estudos a respeito dos povos amazônicos. Em 2022, a publicação ficou em segundo lugar no projeto 200 anos, 200 livros, da Folha de S.Paulo, que reuniu obras essenciais para compreender o Brasil a partir de indicações de 169 intelectuais de língua portuguesa.

É essa obra monumental em densidade e extensão –são mais de 700 páginas– que Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha decidiram levar ao cinema há quase oito anos.

Àquela altura, Eryk Rocha, filho de Glauber, já tinha uma carreira de prestígio como documentarista, com filmes premiados como "Jards" (2013) e "Cinema Novo" (2015). Carneiro da Cunha trabalhava como atriz, alternando-se entre teatro, cinema e TV. "A Queda do Céu", que entrou em cartaz nas salas brasileiras nesta quinta (20), é a estreia dela como diretora no cinema.

Os cineastas iniciaram as conversas com Kopenawa e a Hutukara Associação Yanomami, organização que atua na defesa dos direitos indígenas, que receberam bem o projeto. Mas uma inquietação logo se impôs. Como fazer um filme a partir de um livro que tem a cosmogonia indígena como um dos seus temas centrais? Em outras palavras, como filmar algo tão misterioso, como a interseção entre o sagrado e a natureza?

Depois de enfrentar o impasse e concluir o documentário, Rocha e Carneiro da Cunha dizem que a produção é, na verdade, "uma inadaptação do livro". Para Bruce Albert, o filme se revelou como um novo capítulo da obra, agora em linguagem cinematográfica.

Independentemente do modo como relacionamos a palavra escrita e a imagem, o projeto deu certo. A estreia mundial aconteceu na Quinzena de Realizadores, no Festival de Cannes, em maio de 2024. Desde então, foi exibido em mais de cem festivais pelo mundo e conquistou 25 prêmios.

Ao longo de um mês e meio na comunidade Watorikɨ, em Roraima, a equipe do documentário acompanha a cerimônia funerária Reahu, que marca o adeus ao sogro de Kopenawa. Por meio do pó alucinógeno yãkoana, os xamãs iniciam uma viagem espiritual que os põe em contato com os "xapiri", os espíritos da floresta.

"Quando nós, xamãs, inalamos a yãkoana, nossos olhos morrem para que possamos enxergar os espíritos xapiri", diz Kopenawa durante "A Queda do Céu".

"Não tentamos explicar o que é inexplicável, não tentamos racionalizar o sonho", diz Eryk Rocha. "A linguagem do filme está enraizada nessa experiência radical da festa Reahu."

Com cantos, coreografias, indumentárias e pinturas corporais, a cerimônia tem uma expressividade cênica que a torna cinematográfica. Segundo Carneiro da Cunha, "a força e a beleza dos yanomami estão sintetizadas naquela festa, assim como a tragédia que eles enfrentam".

Ao falar em "tragédia", a diretora se refere a males que afligem os indígenas, como a invasão das terras yanomamis pelo garimpo ilegal, que causa a contaminação dos rios com o mercúrio, entre outros efeitos danosos.

Após uma exibição de "A Queda do Céu" em Belém na última quinta, dia 14, em programação paralela à COP30, Kopenawa participou de um debate e provocou o público. "Nós cuidamos de onde nós nascemos. Vocês entendem isso?"

De acordo com os diretores, o documentário se divide, de um modo bem particular, em três frentes: diagnóstico, alerta e convite. Os dois primeiros pontos estão associados, por exemplo, à transmissão de doenças, como a malária. O convite é para sonhar junto no combate a essa e outras adversidades.

"Toda essa mobilização dos povos indígenas nas ruas de Belém faz parte desse movimento de sonhar junto. A COP também é isso", diz Carneiro da Cunha.

Brancos e indígenas estiveram juntos na realização do documentário. Além da Hutukara entrar no projeto como uma das produtoras, Morzaniel Ɨramari e Roseane Yariana integraram a equipe de fotografia, entre outras parcerias e colaborações.

A partir do longo trabalho para viabilizar "A Queda do Céu", novos projetos surgiram, como três curtas dirigidos por yanomamis. Um deles, "Mãri Hi - A Árvore do Sonho", de Ɨramari, ganhou o prêmio de melhor documentário de curta-metragem na edição de 2023 do festival É Tudo Verdade.

Assim como "Mãri Hi", "A Queda do Céu" é também um meio usado por Kopenawa para levar a um público amplo os recados que a floresta lhe dá. Vale a pena ouvir com atenção.

A QUEDA DO CÉU

- Quando Em cartaz nos cinemas

- Classificação 12 anos

- Produção Brasil, 2024

- Direção Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha

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